sexta-feira, 17 de setembro de 2010

reinventando a viola, o retorno!

Pessoal, acho que enfim tirei as dúvidas! Parece que é mesmo um homem, e que se chama Ronnie e que ele é de Botsuana! Tentei pesquisar na internet para descobrir alguma coisa e só descobri mais alguns vídeos no youtube, na verdade, vários vídeos, e os postarei aqui. Encontrei inclusive esse mesmo vídeo numa qualidade bem melhor. Ah, e tem também um vídeo em que quem toca é aquele camarada de boné que fica ali atrás só tomando uma cervejinha. Então, com vocês, Ronnie, de Botsuana!






e o camarada do boné...



E bom final de semana pra todo mundo!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

reinventando a viola

Quem mais me manda emails interessantes (o que inclui de tudo, de pornografias até desenhos animados) é, por incrível que pareça, meu pai. Se bem que de uns tempos pra cá ele resolveu ficar com vergonha de enviar pornografias... E hoje, ele me enviou um email sensacional. O título era apenas "reinventando a viola", e, à primeira vista, deixei o email lá esperando um pouco, em banho-maria, enquanto eu tomasse disposição e paciência para vê-lo. Foi uma das mais gratas surpresas que tive. Eu nunca tinha visto nada parecido. Realmente é um reinventar da viola. O pior é que não tinha nada escrito no corpo do email, por isso não sei quem é que está tocando, não sei quem filmou, não sei sequer onde é que se passa essa cena. É incrível a cara de nada que esse sujeito faz enquanto toca, ou sei lá... acaricia, batuca, benze... Seria uma apresentação que eu realmente gostaria de ver, e isso porque ando meio impaciente com o que tenho visto por aí sendo produzido por nossas melhores mentes pensantes. Não pensem que eu esteja dando uma de gabola, é só um esgotamento espiritual mesmo (eita!). Enfim, isso aí sim é o tipo de coisa que a gente passa a noite inteira ouvindo e não cansa, até porque essa técnica, creio eu, permite a atuação do acaso e da aleatoriedade, aparentando ser muito difícil repetir a mesma música. Sem mais delongas, eis o vídeo:


E por falar em reinventar as maneiras de tocar e por falar em Django, aqui está uma cena da animação mais do que supimpa "As bicicletas de Belleville", em que acompanhando a apresentação das Tripletes, aparece o Django, tocando com seus dois dedinhos e, com seus pés! Vejam que maravilha:



quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Comemorando: comer e cantar outra vez!

Fiquei hoje bastante feliz, depois dessas minhas ansiosas duas semanas e meia de blog, cheguei às 1.000 visualizações, o que inclui visualizações, além do Brasil, nos EUA, Canadá, Alemanha, França, Espanha, Chile e mais alguns países. Muito obrigado aos meus pacientes leitores! Desse modo, resolvi fazer uma breve comemoração e, para isso, nada melhor do que comer e cantar, no caso de hoje, cantar e comer!
Eu já vinha pensando em fazer uma postagem falando sobre o fantástico músico jazzista Django Reinhardt e achei que agora seria a ocasião ideal. Procurei aqui pela internet algo para falar sobre sua vida, mas já de cara achei o texto da Wikipédia tão bom (http://pt.wikipedia.org/wiki/Django_Reinhardt), que resolvi publicá-lo quase na íntegra. Coloquei uma pequena trilha com algumas de suas músicas na coluna aqui ao lado, na direita, logo abaixo do "Desafio", aproveitem. Sabendo de sua história e de sua dificuldade para tocar, esse camarada fica ainda mais sensacional. Vejam:

"Django Reinhardt (Liberchies, Bélgica, 1910-1953) foi um guitarrista de jazz.
Foi um dos pioneiros do jazz na Europa e também um dos primeiros músicos não negros nesse estilo musical. Compôs "les yeux noirs". Django Reinhardt passou a maior parte de sua juventude em um acampamento cigano próximo a Paris, tocando banjo, guitarra e violino em danceterias de Paris desde muito cedo. Ele começou com o violino e eventualmente tocava um banjo que havia ganhado. Em sua primeira gravação conhecida (de 1928) ele toca o banjo.
Aos 18 anos, Reinhardt foi ferido pelo fogo que incendiou a casa que ele dividia com Bella, sua primeira mulher.Ela fazia flores artificiais de papel e celulose para viver, por isso a casa deles vivia cheia de materiais altamente inflamáveis. Certa noite, ao retornar de uma apresentação, Django derrubou acidentalmente uma vela quando ia para a cama. Enquanto sua família e vizinhos tentavam salvá-lo ele acabou sofrendo queimaduras de primeiro e segundo grau por metade de seu corpo. Sua perna direita ficou paralisada e sua mão esquerda gravemente queimada. Os médicos achavam que ele nunca mais tocaria guitarra novamente. Ele ainda quase teve a perna amputada, mas deixou o hospital pouco tempo depois e, um ano depois, ele já podia andar com a ajuda de bengalas.


O irmão de Django, Joseph Reinhardt (também um exímio guitarrista), lhe trouxe uma nova guitarra. Através de uma dolorosa reabilitação e prática, Django readiquiriu sua habilidade de um modo completamente novo, mesmo com dois dedos parcialmente paralisados. Ele ainda era capaz de usar esses dois dedos para tocar, mas não para fazer solos. Em 1934, Louis Vola formou o "Quintette du Hot Club de France" com Reinhardt, o violinista Stéphane Grappelli, Joseph, o irmão de Django, Roger Chaput na guitarra, e Louis Vola no baixo. Ele produziu numerosas gravações àquele tempo e tocou com diversas lendas do jazz americano como Coleman Hawkins, Benny Carter, Rex Stewart e Louis Armstrong.
(...)
Reinhardt sobreviveu à Segunda Guerra ileso, ao contrário de muitos outros ciganos que foram executados nos campos de concentração nazistas. Essa época foi muito difícil para Django porque o jazz não era permitido no regime nazista. Ele teve a ajuda de um oficial da Força Aérea Alemã chamado Dietrich Schulz-Köhn, conhecido como Doktor Jazz, que admirava muito sua música. Em 1943 ele casou com Sophie Ziegler in Salbris, com quem teve um filho, Babik Reinhardt, que também acabou se tornando um respeitado guitarrista.
(...)
Django Reinhardt foi uma das primeiras pessoas a apreciar e entender a música de Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Ele chegou a procurá-los quando chegou a Nova Iorque, mas infelizmente eles estavam em alguma turnê. Depois de retornar à França, Django passou o resto de seus dias voltando para a vida cigana, com dificuldade de se adaptar à vida moderna. Um dos eventos mais enigmáticos foi quando Reinhardt abandonou, na beira de uma estrada, um carro que havia acabado de comprar porque havia acabado a gasolina. Às vezes Django aparecia para um show e não levava seu instrumento, se mudava de repente para a praia ou para um parque, e às vezes se recusava a levantar da cama.
O conceito de "Lead Guitar" (Django) e "Rhythm Guitars" (Joseph Reinhardt / Roger Chaput) nasceu no Quintette Du Hot Club De France. Eles usavam suas guitarras para percussão quando não havia percussão de verdade na sessão. Mais tarde ele formou uma nova banda com saxofone, trompete, piano, baixo e bateria. Ele continuou compondo, e é lembrado como um dos mais talentosos guitarristas do Jazz.
Em 1948, Reinhardt recrutou alguns músicos italianos de jazz (baixo, piano, percussão) e gravou um de seus mais aclamados trabalhos, “Djangology”, mais uma vez em parceria com seu compatriota Stephane Grappelli no violino. Entretanto, sua experiência nos EUA havia feito dele uma pessoa diferente da que Grappelli havia conhecido, influenciado principalmente pelo jazz americano. Mas nessa gravação, Django voltou a suas raízes, tocando de novo a acústica Selmer-Maccaferi. Esta gravação foi recentemente descoberta por entusiastas do jazz e está disponível para venda nos EUA e Europa.
Em 1951 mudou-se para Samois sur Seine, França, perto de Fontainebleau. Ele viveu lá por dois anos até 16 de maio de 1953, quando, retornando da estação de trem de Avon, ele desmaiou devido a uma hemorragia cerebral. O médico levou o dia todo para chegar e Django foi declarado morto ao chegar no hospital em Fontainebleau."


Continuando a celebração, vou colocar aqui uma receita simples, aparentemente muito boa (ainda não a testei!), e que tem uma cara muito bonita. Chama-se "Sorvete de romã sem esforço" e é do livro da Nigella Lawson, aquela bonitona que aparece cozinhando no GNT e vai assaltar a geladeira de noite. O livro é ótimo e se chama "Nigella Express", da Ediouro. Aí está a receita:

"Não é difícil pensar em uma sobremesa que possa ser feita com antecedência. Mas, na maioria das vezes, a vantagem é ter tido todo o trabalho mais cedo. Nesse caso, você prepara tudo com antecedência - eis uma boa razão: é um sorvete -, mas sem nenhum trabalho. Não precisa fazer nenhum creme, não precisa tirar a fôrma do congelador e ficar batendo o sorvete. Basta espremer as frutas e misturar. 
Além desse bom motivo para alegria, há o fato de que esse delicado sorvete cor-de-rosa tem gosto de paraíso.

2 romãs (mais as sementes de uma terceira, para decorar)
1 limão
175g de açúcar de confeiteiro
500ml de creme de leite fresco

1. Tire os sucos das romãs e do limão e ponha numa tigela.
2. Junte o açúcar de confeiteiro e misture para dissolver.
3. Junte o creme de leite fresco e bata tudo junto, até que se formem picos macios no creme cor-de-rosa.
4. Com uma colher, transfira o creme para um recipiente de fecho hermético e deixe no freezer por pelo menos 4 horas, ou de um dia para o outro.
5. Antes de servir, polvilhe o sorvete com sementes de romã.

Rende 8 porções."

Aí abaixo um vídeo do Django:

terça-feira, 14 de setembro de 2010

catavento


Eis aqui outra música minha. Desta feita não vou colocar a gravação da Fumaça da Pólvora e é por dois motivos. O primeiro é que eu dei umas arrumadinhas, umas guaribadas na letra e agora sim eu acho que a música ficou pronta. Mantive seu jeitão original, só arredondei um fraseado ou outro, quem já a conhece não vai se assustar com as mudanças. O segundo motivo é que eu to aprendendo a mexer aqui num programa do computador que grava os sons, cria uns efeitos, já vem com uns instrumentos que a gente toca no próprio teclado do computador... é uma viagem. E eu to aqui verminando nele. O único problema é que quem está cantando sou eu mesmo... e eu sei que quase nunca é uma boa idéia me ouvir cantar. Mas eu tô até gostando! Acho que nem tá tão mal assim... Aí abaixo vai a letra, o poema no final é do Manoel de Barros, é do livro "Matéria de Poesia".  Quem for cantor e quiser gravar essa música é só falar comigo! hahahaha! 


Catavento
(João Lucas)

Acordei cheio de idéias,
cata vento, cata voz,
gira o mundo sob nós,
gira a abelha na colméia.
O velho com sua velha
rodam o sábado todinho,
no passinho mais miudinho.
O artista num momento
vai rodar o catavento
e trazer você pra mim.

Todo mundo na ciranda,
roda e brinca o menino.
Vai girando o destino
no enrolar da minha pança.
Quero ver rodar na dança,
meu amor rodar assim...
nessa ladeira sem fim
esculpida pelo Tempo
que vai rodar o catavento
e trazer você pra mim.

Vem o vento que assopra
o monstrengo e a ventoinha.
Dom Quixote na Prainha,
o cavaleiro abriu a porta
e soprou toda a história
que eu contei no seu jardim.
Essas flores são pra mim!
Quem plantou-as foi o vento
que rodou meu catavento
e trouxe você pra mim!


Matéria de Poesia 3
(Manoel de Barros)

Então - os meninos descobriram que amor
Que amor com amor
Que um homem riachoso escutava os sapos
E o vento abria o lodo dos pássaros

Um garoto emendava uma casa na outra com urina
Outros sabiam a chuvas. E os cupins
Comiam pernas de armário, amplificadores, ligas
religiosas...

Atrás de um banheiro de tábuas a poesia
Tirava as calcinhas pra eles
Ficavam de um pé só para as palavras -
A boca apodrecendo para a vida!

De tarde
Desenterraram de dentro do capinzal
Um braço do rio. Já estava com cheiro.
Grilos atarraxados no brejo pediam socorro.

De toalha no pescoço e anzol no peixe
Eles foram andando...
Botavam meias-solas nas paisagens
E acendiam estrelas com lenha molhada.

Acharam no roseiral um boi aberto por borboletas
Foi bom.
Viram casos de ostras em canetas
E ajudaram as aves na arrumação dos corgos

A todo momento eles davam com a rã nas calças
Cada um com a sua escova
E seu lado de dentro. Apreciavam
Desamarrar os cachorros com lingüiça.

À margem das estradas
Secavam palavras no sol como os lagartos
Passavam brilhantina nos bezerros. E
Transportavam lábios de caminhão...

Nunca poucos fizeram tantos de pinico!
Só iam pra casa de lado - como uma pessoa
Que tem cobra no bolso.
E para cada mão - os cinco dedos de palha.

Os cataventos na Prainha, em Aquiraz-CE. Os créditos da foto são de Mikaeli Cardozo, achei nesse site aqui ó: http://www.panoramio.com/photo/20208811

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

um instrumento sinestésico




Quando eu estava desenvolvendo meu projeto de graduação, o tão famigerado P.G., que lá na arquitetura tem gente que chega a passar mais anos nele do que ao longo do curso, conheci durante minhas pesquisas um instrumento musical incrível chamado Theremin. Eu estava lendo um livro chamado "Sinestesia, Arte e Tecnologia - fundamentos da cromossonia", escrito por Sérgio Roclaw Basbaum; se não me engano esta era sua tese de doutorado, e nesse livro, o autor se mostra bastante interessado no efeito da sinestesia, que é aquele pessoal que, por exemplo, escuta colorido ou que sente o sabor do que vê. Desenvolvendo suas idéias, ele termina por sugerir um programa computacional em que ele faz relações entre a música e as imagens, de modo que tudo o que ele toque possa também projetar certas cores e imagens. É bastante interessante. Mais interessante ainda é o instrumento que ele propõe usar para isso: o Theremin. Sua descrição wikipediana é a seguinte: "O teremim é um dos primeiros instrumentos musicais completamente eletrônicos. Inventado em 1919 pelo russo Lev Sergeivitch Termen (conhecido também pela forma francesa do nome: Léon Theremin), o teremim é único por não precisar de nenhum contato físico para produzir música e foi, de fato, o primeiro instrumento musical projetado para ser tocado sem precisar de contato, pois é executado movimentando-se as mãos no ar. Apresentado pelo próprio inventor em 1920, o instrumento opera através do princípio da produção de efeito heteródino em dois osciladores de frequência radiofônicos e consiste de caixa com duas antenas externas, uma que controla a altura, e outra, o volume, ao redor das quais o músico movimenta suas mãos para produzir som. O teremim também tem versões com teclado e com espelho, como o dos instrumentos de corda."

Porém a grande representante do Theremin, foi, se não me engano, a neta do inventor Léon Theremin, a musicista Clara Rockmore, e é com ela o fantástico vídeo que vou postar a seguir. Espero que aproveitem! (Notem os móveis, o quadro, as roupas... Imaginem-se netos ou sobrinhos dessa mulher, chegando de mansinho, com todo o medo do mundo na casa dela! Por isso que esse instrumento é sem dúvida sinestésico: mesmo que a gente não veja cores ou formas a gente sente algo a mais que é o medo!...)


Nossa casinha


Nossa casinha
(João Lucas)


Nossa casinha
terá detalhes de ladrilhos
colorindo pelo chão.
Vai ter uma mesinha redonda
com xícaras de louça
para o café da manhã.
No quintal, um jardim enorme
vai abrigar todas as flores,
todas as frutas e os bichos das frutas.
E os bichos que não são das frutas
mas que também estarão
no nosso jardim, morando conosco,
nos lembrando todos os dias
de como é que se deve viver.
Móveis antigos, paredes novas.
Um porta-retrato
–  dos que já foram,
dos que já nos são
e dos que ainda serão
um brilho em nossos olhos.
Nossa casinha é tão bonita
que já nem é mais o meu sonho:
é a minha realidade
que se impregnou de tua alma.




Isabellinhêê! Essa poesia é pra ti! Liga o computador! 

domingo, 12 de setembro de 2010

A filosofia do Penetral

"Há muito tempo que eu desejava me instruir sobre aquela profunda Filosofia clementina, para me ajudar em meus logogrifos. Por isso, avancei:
- Clemente, esse nome de "penetral" é uma beleza! É bonito, difícil, esquisito, e, só por ele, a gente vê logo como sua Filosofia é profunda e importante! O que é que quer dizer "penetral", hein?
Clemente, às vezes, deixava escapar "vulgaridades e plebeísmos" quando falava, segundo sublinhava Samuel. Naquele dia, indagado assim, respondeu:
- Olhe, Quaderna, o "penetral" é de lascar! Ou você tem "a intuição do penetral" ou não tem intuição de nada! Basta que eu lhe diga que "o penetral" é "a união do faraute com o insólito regalo", motivo pelo qual abarca o faraute, a quadra do deferido, o trebelho da justa, o rodopelo, o torvo torvelim e a subjunção da relápsia!
- Danou-se! - exclamei, entusiasmado. - O penetral é tudo isso, Clemente? -Tudo isso e muito mais, Quaderna, porque o penetral é o "único-amplo"! Você sabe como é que "a centúria dos íncolas primeiros", isto é, os homens, sai da "desconhecença" para a "sabença"?
- Sei não, Clemente! - confessei, envergonhado.
- Bem, então, para ir conhecendo logo o processo gaviônico de conhecimento penetrálico, feche os olhos!
- Fechei! - disse eu, obedecendo.
- Agora, pense no mundo, no mundo que nos cerca!
- O mundo, o mundo... Pronto, pensei!
- Em que é que você está pensando?
- Estou pensando numa estrada, numas pedras, num bode, num pé de catingueira, numa Onça, numa mulher nua, num pé de coroa-de-frade, no vento, na poeira, no cheiro do cumaru e num jumento trepando uma jumenta!
- Basta, pode abrir os olhos! Agora me diga uma coisa: o que é isto que você pensou?
- É o mundo!
- É não, é somente uma parte dele! É "a quadra do deferido", aquilo que foi deferido a você, como "íncola"! É "o insólito regalo"! É "o côisico", dividido em duas partes: a "confraria da incessância" e "a força da malacacheta", representada, aí no que você pensou, pelas pedras. Agora pergunto: tudo isso pertence ou não pertence ao penetral?
- Não sei não, Clemente, mas pela cara que você esta fazendo, parece que pertence.
- Claro que pertence, Quaderna! Tudo pertence ao penetral! Tudo se inclui no penetral! Entretanto, para completar "o túdico" você, na sua enumeração do mundo, deixou de se referir a um elemento fundamental, a um elemento que estava presente e que você omitiu! Que elemento foi esse, Quaderna?
- Sei não, Clemente!
- Foi você mesmo, "o faraute"!
O Faraute não, o Quaderna! - disse eu, logo cioso da minha identidade.
- O Quaderna é um faraute! - insistiu Clemente.
Como aquilo podia ser alguma safadeza, reagi:
- Epa, Clemente, vá pra lá com suas molecagens! Faraute o quê? Faraute uma porra! Faraute é você! Não é besta não?
- Espere, não se afobe não, homem! Faraute não é insulto nenhum! Eu sou um faraute, você é um faraute, todo homem é um faraute!
- Bem, se é assim, está certo, vá lá! E o que é um faraute, Clemente?
- Ora, Quaderna, você, leitor assíduo daquele Dicionário Prático Ilustrado que herdou de seu Pai, perguntar isso? Vá lá, no seu querido livro de figuras, que encontra! "Faraute" significa "intérprete, língua, medianeiro"! O curioso é que "a quadra do deferido" e o "rodopelo" pertencem ao penetral, mas o faraute, seja "nauta-arremessado" ou "tapuia-errante", também pertence! Não é formidável ? É daí que se origina "o horrífico desmaio", o "tonteio da mente abrasada"! Inda agora, quando pensou no mundo, você não sentiu uma vertigem não?
- Acho que não, Clemente!
- Sentiu, sentiu! É porque você não se lembra! Quer ver uma coisa? Feche os olhos de novo! Isto! Agora, cruze as mãos atrás da nuca! Muito bem! Pense de novo naquele trecho do insólito regalo em que pensou há pouco! Está pensando?
- Estou!
- Agora, me diga: você não está sentindo uma espécie de tontura não?
Eu, que sou impressionável demais, comecei a oscilar, sentindo uma tonteira danada, na cabeça. Pedi permissão a Clemente para abrir os olhos, porque já estava a ponto de cair da sela. O Filósofo, triunfante, concedeu:
- Abra, abra os olhos! Como é? Sentiu ou não sentiu a vertigem? Sabe o que é isso? É a "oura da folia", início da "sabença", da "conhecença"! A oura causa o "horrífico desmaio". Este, leva ao "abismo da dúvida", também conhecido como "a boca hiante do contempto". O abismo comunica ao faraute a existência do "pacto" e da "ruptura". A ruptura conduz à "balda do labéu". E é então que o nauta-arremessado e tapuia-errante torna-se único-faraute. Isto é, o faraute é, ao mesmo tempo, faraute do insólito-regalo, faraute do rodopelo e faraute do faraute! Está vendo? O que é que você acha do penetral, Quaderna?
- Acho de uma profundeza de lascar, Clemente! Para ser franco, entendi pouca coisa, mas já basta para me mostrar que sua Filosofia é foda! Mas o que é, mesmo, penetral?
- Vá de novo ao "pai-dos-burros"! "Penetral" é "a parte mais recôndita e interior de um objeto". Mas, na minha Filosofia, essa noção é ampliada, porque além de abranger a quadra do deferido e o rodopelo, o penetral abrange também o faraute, através da subjunção da relápsia! Mas, no momento em que se fala friamente do penetral, tentando capturá-lo em categorias de uma lógica sem gavionice negro-tapuia, ele deixa de ser apreendido! Faça apelo aos gaviônicos restos de sangue Negro e Tapuia que você tem, Quaderna, e entenda que o penetral "é o penetral", que o penetral "é"! O côisico, coisica: os cavalos cavalam, as árvores arvoram, os jumentos jumentam, as pedras pedram, os móveis movelam, as cadeiras cadeiram, e o faráutico, machendo e feminando, é que consegue genterer e farauticar! É assim que o túdico tudica e que o penetral penetrala - e esta, Quaderna, é a realidade fundamental!
- Arra diabo! - disse eu, de novo embasbacado. - E tudo isso já estava na Mitologia Negro-Tapuia, Clemente?
- Estava, estava! Aliás, está, ainda! É por isso que o "Gênio da Raça Brasileira" será um homem do Povo, um descendente dos Negros e Tapuias, que, baseado nas lutas e nos mitos de seu Povo, faça disso o grande assunto nacional, tema da Obra da Raça!
Claro que era em si mesmo que Clemente estava pensando. Mas Samuel contestou logo:
- Nada disso, Quaderna! O "Gênio da Raça Brasileira" deverá ser um Fidalgo dos engenhos pernambucanos! Um homem que tenha nas veias o sangue dos Conquistadores ibéricos que fundaram, com a América Latina como base, o grande Império que foi o orgulho da Latinidade católica! Portugal e a Espanha não tinham dimensões para realizar aquilo que, neles, foi somente uma aspiração! Mas o Brasil é um dos sete Países perigosos do mundo! Por isso, cabe a nós instaurar, aqui, esse Império glorioso que Portugal e a Espanha não puderam realizar!
- Mas como deverá ser escrita a Obra da Raça Brasileira? - perguntei. - Em verso ou em prosa ?
- A meu ver, em prosa! - disse Clemente. - E é assunto decidido, porque o filósofo Artur Orlando disse que "em prosa escrevem-se hoje as grandes sínteses intelectuais e emocionais da humanidade"!
Samuel discordou:
- Como é que pode ser isso, se todas as "obras das raças" dos Países estrangeiros são chamadas de "poemas nacionais"?
- O Almanaque Charadístico diz, num artigo, que os Poetas nacionais são, sempre, autores de Epopéias! - tive eu a ingenuidade de dizer.
Os dois começaram a rir ao mesmo tempo:
- Uma Epopéia! Era o que faltava! - zombou Samuel. - Vá ver que Quaderna anda pelos cantos é conspirando, para fazer uma! Sobre o quê, meu Deus? Será sobre essas bárbaras lutas sertanejas em que ele andou metido? Não se meta nisso não, Quaderna! Não existe coisa de gosto pior do que aquelas estiradas homéricas, cheias de heróis cabeludos e cabreiros fedorentos, trocando golpes, montados em cavalos empastados de suor e poeira, a ponto de a gente sentir, na leitura, a catinga insuportável de tudo!
Clemente uniu-se ao rival, se bem que por outro caminho. Disse:
- Além disso, a glorificação do Herói individual, objetivo fundamental das Epopéias, é uma atitude superada e obscurantista! E se você quer uma autoridade, Carlos Dias Fernandes também já demonstrou, de modo lapidar, que, nos tempos de hoje, a Epopéia foi substituída pelo Romance!"
Ariano Suassuna (Romance da Pedra do Reino, 1971)