quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Sempre 8 ou 80 - Crossfit


As pessoas costumam me achar sempre 8 ou 80, nunca meio termo. Dizem que sempre sou intenso no que vou fazer, feito um maluco. Recebo as novidades como se fossem a descoberta da minha vida e martelo naquilo até me acabar. Ano passado resolvi me exercitar e passei a pedalar uns 20 km todos os dias de manhã e correr 6km à tarde, até que roubaram minha bicicleta e estou parado até hoje, bem barrigudinho, ou como diz meu cunhado, com o "Panceps" bem desenvolvido. Estou voltando, voltei a treinar capoeira e agora só quero andar de abadá e cantando canções sobre mestre Bimba ou Pastinha. 
Essa introdução foi pra contar que minha irmã disse que achou o exercício perfeito para mim. Diz ela que quando viu a reportagem, lembrou-se de mim na mesma hora. Me ligou, me enviou por email. É um negócio chamado Cross Fit. Feito por um doido, para doidos. As pessoas levantam peso, pulam, correm até se acabar. Terminam deitados no chão, quase desmaiando. Para quem se interessar aí está a reportagem da revista Época. Já comecei a montar uns halteres para mim feitos de lata de tinta cheias de concreto e brita... Dessa vez ninguém vai roubar os meus halteres...


O CrossFit exige superação ou é um exagero? 


Cada dia o programa de exercícios escrito na lousa tem um nome de mulher. Hoje é Elizabeth. Até o fim da prática ela será amada e odiada. Depois de tirar uma pesada barra do chão e apoiá-la nos ombros 45 vezes. Depois de fazer movimentos de sobe e desce nas argolas suspensas, em séries de 21, 15 e nove repetições, em ritmo frenético. Depois disso tudo, os alunos se jogam no chão para recuperar as forças. Eles não são atletas profissionais nem soldados. São gente comum querendo manter a forma e se preparar para suas atividades esportivas e de lazer. Musculação e corrida, para eles, não bastam. Eles vieram ao CrossFit para treinar até cair. Eles são praticantes do programa de condicionamento físico mais exigente do mundo.
A ideia de misturar levantamento de peso com ginástica olímpica e certo rigor militaresco para treinar pessoas comuns ocorreu há mais de 20 anos ao americano Greg Glassman, hoje um cinquentão pançudinho que lucra com o sucesso de seu treinamento. Na visão dele, era preciso unir num programa só o que cada modalidade esportiva tinha de melhor – a força dos levantadores de peso, a capacidade cardiorrespiratória dos corredores, o aprendizado rápido dos ginastas e a habilidade para saltar e arremessar dos praticantes do atletismo – e então formar os atletas mais condicionados do mundo.
Usando estratégias tão variadas quanto erguer barras, caminhar com um amigo nas costas e saltar sobre uma pilha de pneus, Glassman montou sequências de movimentos que aceleram os batimentos cardíacos rapidamente e exaurem os músculos em poucos minutos. Um praticante de elite, segundo ele, pode alcançar uma potência dez vezes maior do que a atingida em sessões normais de condicionamento físico. A exigência física pode ser tão forte que alguns iniciantes vomitam na primeira sessão.
A base do método são movimentos que usam as funções mecânicas naturais do corpo – como avançar, saltar, abaixar e arremessar – realizados muitas vezes em ritmo acelerado, com várias repetições e carga elevada. O diferencial é a variação de exercícios. O momento mais importante de cada aula é o WOD (workout of the day, exercício do dia), que concentra os exercícios de maior intensidade. Num dia, o WOD pode ser de apenas cinco minutos de flexões e levantamento de peso. No outro, 40 minutos de corrida leve e lançamento de bola na parede. Cada um dos participantes trabalha com pesos, tempos e número de repetições adequados a seu condicionamento.
Segundo Tony Budding, diretor de comunicação da empresa CrossFit, com sede nos Estados Unidos, a marca tem mais de 2 mil ginásios afiliados em diferentes países e mais de 20 mil professores certificados. O site na internet (Crossfit.com), que inclui artigos e inúmeros vídeos enviados pela comunidade de seguidores, registra cerca de 3 milhões de visitas por mês. Ali, além dos WODs oficiais que vão sendo renovados diariamente, a comunidade de praticantes coloca comentários sobre sua própria experiência com o treinamento. Alguns se dizem viciados.
Parte do fanatismo se deve à postura destemida que os crossfiteiros adotam. Lemas como “A dor é a fraqueza deixando seu corpo” servem de motivação para os praticantes encararem as dificuldades como desafios e desejarem resultados melhores a cada treino. Há um clima de “vamos ser campeões”, sendo cada um o próprio adversário. Nos ginásios, os resultados dos alunos são expostos numa lousa para que todos possam ver.
Os crossfiteiros se orgulham de não ligar para espelhos, máquinas modernas e qualquer tipo de “frescura” associada às academias convencionais, onde, acreditam eles, os clientes não gostam de treinar de verdade. Os espaços de CrossFit em qualquer lugar do mundo são simplórios e algo nostálgicos. Os equipamentos usados são normalmente barras móveis e fixas, bolas com peso, halteres, corda de pular e de escalar, bancos para saltar, elásticos e kettlebells (uma espécie de bola de ferro com alça para erguer do chão até acima da cabeça). O máximo de maquinário é um remo ergômetro.
O primeiro CrossFit licenciado no Brasil abriu as portas no final do ano passado, em São Paulo, e já tem admiradores fiéis. Um dos primeiros alunos foi Luiz Renato Oliveira, de 36 anos, lutador de full-contact e jiu-jítsu desde a adolescência. Ele conta que havia muito tempo já fazia uma preparação física para a luta baseada em musculação e movimentos funcionais, mas nunca havia experimentado um treino tão intenso e eficaz quanto o CrossFit. “Agora sinto que estou preparado para qualquer coisa. Fiz snowboard sem sentir nenhuma dor”, diz ele. “Na luta, além de me sentir mais forte e confortável, parei de me machucar.”
Honorio Lisboa Neto, de 58 anos, é outro convertido. Ele diz que passou a vida tentando frequentar academias, mas nunca ficava por mais de dois meses. Até o início do ano, a única atividade física que o atraía era a escalada em rocha, que só acontecia nos fins de semana. “Quando descobri isto aqui foi uma maravilha”, diz um Honorio ainda ofegante. Ele tinha acabado de terminar um exercício de 12 minutos intercalando o lançamento de bola medicinal para o alto com um movimento chamado Burpee, que consiste em encostar o peito no chão, ficar de pé e bater as mãos acima da cabeça. Sem intervalos, claro. “Já vejo os resultados na escalada, mesmo sem um treinamento específico, diz Honorio.
Outro lema do CrossFit é que ele é para todos, mas não para qualquer um. O professor Joel Fridman, que conheceu o CrossFit no Canadá e o trouxe para o Brasil, acredita que o pré-requisito é a vontade de melhorar. “Já vi pessoas de todas idades, gente sem perna, sem braço, grávidas, crianças, militares e donas de casa começando a treinar”, afirma. “O que a maioria busca é qualidade de vida.” Há restrições? “Nossa proposta é elevar o condicionamento físico, partindo do estágio inicial da pessoa. As bases e os fundamentos do treino são feitos para qualquer situação”, diz Fridman.
Mas há razões para desconfiar que nem todo mundo se beneficia de um trabalho físico tão intenso. Em 2005, Glassman, o precursor americano, teve de se pronunciar sobre casos de rabdomiliólise envolvendo seus treinos. A rabdomiliólise é uma lesão muscular severa que libera pedaços de células musculares para dentro dos vasos sanguíneos e pode levar a uma insuficiência renal aguda. Glassman publicou um artigo em seu jornal on-line em que diz que as vítimas eram pessoas fisicamente treinadas, mas ainda despreparadas para os altos níveis de intensidade que o CrossFit exige dos mais experientes. Um dos símbolos visuais do CrossFit é Uncle Rhabdo, um palhaço repugnante, cheio de feridas, com um rim pendurado fora do corpo. É um jeito meio rude que os praticantes usam para se gabar – e para recomendar aos novatos que progridam respeitando seus limites.
Os especialistas ainda não estão convencidos sobre as vantagens da nova modalidade de exercícios. O fisiologista e professor de educação física Raul Santo, da Universidade Federal de São Paulo, explica que a variação constante na duração e na intensidade dos exercícios, embora positiva, mexe com o metabolismo de uma forma que pode sobrecarregar o sistema cardíaco em algumas pessoas. “Para buscar performance é preciso ter saúde primeiro”, diz ele. Para Julio Serrão, professor de biomecânica da Universidade de São Paulo, os resultados são mais rápidos quando se aumentam o volume e a intensidade dos exercícios, mas o risco de lesão aumenta junto.
Munida das recomendações e confiante em meu preparo físico (oito anos de ginástica localizada, dez de musculação e um de iniciação ao circo), resolvi experimentar o CrossFit. O desafio inaugural foi pesado: mais de 100 agachamentos rápidos, feitos em séries de oito segundos, com apenas dez de descanso. Ele me rendeu dor muscular por três dias e vontade de xingar o professor. Passado o sufoco, minhas primeiras duas semanas de aula foram bem menos dolorosas do que eu imaginava. O treinamento mais difícil virá gradualmente, depois de muita ênfase na técnica. Mas há um pré-requisito imprescindível para quem quer tentar o CrossFit: gostar de se mexer. Muito.




segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Dar dinheiro aos mais ricos os torna “vagabundos”? - do blog do Sakamoto

Pois, em primeiro lugar, já fazem alguns dias que não posto nada no blog, é que eu tava metido em umas festas esse fim de semana que não me deram muita disposição para estar em frente ao computador. De qualquer modo, hoje já estou voltando à ativa, mas com um texto que não é meu, é que minha irmã escolheu uns 4 ou 5 blogs para acompanhar e dos quais é leitora assídua e de vez em quando me vem com um ótimo texto. Esse ela me enviou por email, tirado do blog do Sakamoto. Vou reproduzir aqui o texto. Leiam! É formidável!


"Por Deus! Não estamos elegendo um pastor ou uma freira
Não deixe o spam ser um grande eleitor neste segundo turno"


"Dar dinheiro aos mais ricos os torna “vagabundos”?
(Leonardo Sakamoto)

O caminho para transformar políticas de governo em políticas de Estado é lento e difícil. Ao que parece, os partidos de oposição perceberam que não conseguirão apoio das classes populares sem garantir que manterão ou ampliarão determinados programas, como os de transferência de renda, vinculados ou não à educação – que tiveram seu início na era FHC e passaram por um processo de universalização no governo Lula. Programas que contribuíram, e muito, para movimentar a economia em locais antes estagnados.
Considerando que a renda de capital foi estratosfericamente maior que a renda do trabalho e os recursos usados para o pagamento de juros foram bem maiores que os usados para os programas sociais (em todos os governos, de FHC a Lula), fico extremamente incomodado quando ouço pessoas reclamando que “dar dinheiro aos pobres os torna vagabundos”.
E o dinheiro que vai às classes mais abastadas, que investem em fundos baseados na dívida pública federal? Em 2006, foram R$ 163 bilhões, enquanto os programas sociais contavam com 13% disso (dados do Ipea). Grosso modo, muito vai para poucos e pouco vai para muitos. E, mesmo assim, sou obrigado a ouvir pérolas quase que diariamente, reclamando dos programas de transferência de renda, não no sentido de melhorá-los, mas de extingui-los. É claro que é importante avançar na construção de “portas de saídas” para programas como o Bolsa-Família, gerando autonomia econômica. Mas a raiva com a qual essas iniciativas vêm sendo tratadas durante a eleição por algumas pessoas me surpreende.
E se eu dissesse que “dar dinheiro aos ricos os torna vagabundos?” Por que usar a frase para os pobres é ser um “analista sensato da realidade” e usar a frase aos ricos é ser um “$#@%# de um comunista safado”?
A conversa, abaixo, ocorreu recentemente em um local de trabalho de um bairro rico da cidade de São Paulo. Uma menina de classe média alta paulistana desabafou com sua interlocutora, recentemente integrada à classe média baixa:
- Essas bolsas ficam alimentando vagabundo! É tudo bolsa-preguiça: bolsa-escola, bolsa-faculdade, bolsa-família…
(O que ela não imaginava é que a outra pessoa era beneficiária do programa federal que concede bolsas de estudos a estudantes de graduação.)
- Bolsa-preguiça, não! Porque eu trabalho e tenho que dar dinheiro em casa, além de tudo. Bolsa-preguiça é a mesada que seu pai te dá sem que você tenha que botar a mão no bolso.
Depois disso, ainda tive que engolir um comentário de um terceiro para quem mostrei essa conversa: “pô, a bolsista tinha que apelar? Pobre é tudo mal educado mesmo.” Não, não, não, não. Ele não estava fazendo uma piada.
Dava para passar o dia discutindo o tema. Mas deixo isso para alguns comentários vazios que são gerados na internet por visões distorcidas e medos individuais, protegidos pelo anonimato covarde da tela de computador. Afinal, este post não está criticando ou elogiando partidos ou governos, mas tentando entender o que, além do preconceito, faz com que um cidadão que tenha um pouco mais na conta bancária acredite que pisar no andar de baixo é a solução para galgar ao andar de cima? E que o futuro do país é feito uma Arca de Noé, com espaço para salvar pouca gente do dilúvio iminente?
Para esse pessoal, é cada um por si e Deus – proporcionalmente ao tamanho do dízimo deixado mensalmente – para todos. Fraternidade e solidariedade são palavras que significam “doação de calças velhas para vítimas de enchente”, “brinquedos usados repassados a orfanatos no Natal” ou “uma doaçãozinha limpa-conciência feita a alguma ONG”. Nada sobre um esforço coletivo de buscar a dignidade para todos, porque todos (teoricamente, apenas teoricamente) nascem livres e iguais."

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

os muros

Depois de todo aquele meu devaneio sobre muros, muralhas, fortalezas, resolvi postar um poema sobre os muros. Segue:

Os muros
(João Lucas)

Só há silêncio
por detrás dos muros.
A rua segue sua vida
tão repleta de vazios,
que nem se lembra
de passar sua maquiagem.
Fachadas são perfumes
de Bugaris e roseiras
que se escondem
no silêncio dos sepulcros.
Pois só há silêncio
por detrás dos muros!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Fortaleza velha

Como prometi que colocaria algumas fotos antigas de Fortaleza, o farei hoje. Vou começar com fotos dos anos 30 e 40. Dá pra ver que era outra cidade. As ruas eram bem mais espaçosas, não havia asfalto e a arborização era bem maior. Realmente era uma cidade bem mais humana. Não consigo entender essa visão de que o progresso para chegar tem que desfazer o que já existia. Não sei se essa é exatamente uma visão antiga mas vovó ainda torce para que derrubem "as velharias" e construam prédios modernos.
A Teoria dos Sistemas nos fala que nossas experiências, vivências, enfim, nossa história, nos fornece um arsenal de informações, ou seja, dados, percepções, para que possamos ter munição para sobreviver no mundo. É a construção de uma função memória, que nos fornece suporte para enfrentar as situações cotidianas e superá-las cada vez mais facilmente. A função memória é primordial para as intenções de qualquer sistema, que é permanecer o máximo possível no tempo. Sem ela não há como se falar em permanência. Ou seja, sem passado não há futuro. 
Peço permissão para divagar um pouco. Escrevi isso para falar da cidade de Fortaleza como sistema. Que mecanismos ela utiliza para manter viva uma função memória, preservando sua história e suas informações? Por um momento, pensei que nenhum. Fortaleza irá se degenerar como cidade e, tal qual uma Roma antiga, irá se decompor em pequenas cidades-estado, ou melhor, casas-estado, individuais, unifamiliares, cercadas de grandes muralhas, onde será sempre perigoso ir à rua, transformada em constante campo de batalha? Ir ao super-mercado virará a função do homem, do macho, que como se estivesse indo à caça, buscando o alimento diário, e pra isso, haverá de armar-se até os dentes se quiser voltar vivo para o interior de seus muros.
Após essa ficção científica (que acho que já ocorre, o que fiz foi só exagerar um pouco a situação atual), quero terminar dizendo que talvez, a cidade como sistema, afim de preservar sua função memória, crie figuras como nós, que nos interessamos em pesquisar, em manter, em divulgar seu passado, sua cultura, sua identidade. Talvez nós possamos fazer algo por essa cidade, talvez ela não precise cair feito um Império Romano, e possa voltar a ser uma cidade bucólica e agradável como já fora outrora... talvez...

A Av. Almirante Barroso, essas casas ficam pertinho do Dragão do Mar.

Um transporte que ligava Fortaleza a Russas.

Uma mansão na Av. Santos Dumont, hoje está instalado o TRT.

outra foto da Santos Dumont

Santos Dumont também

Rua Floriano Peixoto, na esquina da Praça do Ferreira, este é o prédio em que está o Lescale.

Eis a Praia de Iracema.

Uma foto aérea da Praça do Ferreira, sacada do Excelsior Hotel.

Outra foto aérea. Aqui vemos o prédio da Sefaz, a catedral antiga,  a Av. Alberto Nepomuceno...

Os bondes passando em frente à antiga catedral.

O edifício onde ficava a faculdade de Direito, hoje é o museu do Ceará.

O Excelsior Hotel. É aquele que tem um coro de criancinhas no Natal.

Av Floriano Peixoto. Esse é o prédio da Caixa.

O já falecido palácio do Plácido. Ficava na Santos Dumont, na praça Luíza Távora.

Uma foto aérea.

Outra do Excelsior. Isso é na verdade, um cartão postal.

O Theatro José de Alencar.

Essa foto é na Praia de Iracema!

Aqui é na Volta da Jurema!

A antiga catedral vista de cima. Por trás o palácio do Bispo, hoje sede da prefeitura.

Casa na esquina da Av. Alberto Nepomuceno. Hoje abriga a Sefaz.

Mais um palacete.

A Igreja do Pequeno Grande.

O Mucuripe.

A praça da Escola Normal.

O Cine Moderno. 
A Rua Major Facundo. Dá pra reconhecer?

O Cine Majestic. Morreu queimado.

O Café Java, na Praça do Ferreira. Essa foto é de 1908. Aí funcionou a Padaria Espiritual.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

O passeio pelo Centro

Vejam só que mancada. Ontem falei, falei, falei e falei do Centro e coloquei fotos da Praia de Iracema. Sem problemas. Hoje passei as fotos da minha máquina para o computador. Não tem fotos de todo o passeio porque as pilhas da câmera não foram capazes de abarcar o percurso completo. Depois o Eugênio me manda as da sua máquina e fica tudo perfeito. Notem o absurdo que são os postes de iluminação pública, com seus fios e luminárias que mais parecem monstros de desenho animado. São uma das coisas que mais escondem os pobres prédios abandonados... Acho que vocês merecem também fotos antigas de lá, para comparar, então amanhã as postarei. Hoje terão apenas as que a gente tirou. Fiz um videozinho rápido, meia-boca, para apresentá-las. Não vi maneira melhor de fazer isso. O Eugênio fez o favorzão de mandar um pedaço, de um pedaço, de um pedaço, de um pedacinho de um pedaço do projeto dele, que é o primeiro rabisco indicando o trecho que a gente percorreu. É bom para localizar vocês. De qualquer forma, começamos pelo Teatro São José, ou o que resta dele, pela frente do Dragão do Mar, na esquina da Monsenhor Tabosa com Dom Manuel. Descemos pela Rua Rufino de Alencar, aquela que sai por detrás da Catedral, em frente ao Paço Municipal. Descemos por aquelas ruazinhas na lateral da Catedral, embiocamos por aqueles comércios de grão, raízes, cachaças etc, que fica no miolo da quadra, entre a Governador Sampaio e Conde D'Eu. Caímos na Travessa Crato. Lá tinha um velhão artista, tocando violão e cantando com aquela voz de Nelson Gonçalves; depois começaram um chorinho à base de sanfona. Daí caminhamos até a Rua João Moreira e aí chegou a parte mais trabalhosa, pois demos a volta em todas as quadras que se limitam com a João Moreira, garimpando cada casinha. Naquele calor de lascar, tomei uma das melhores cervejas dos últimos tempos, apesar de não passar de uma Skol de latinha, desceu redondíssima, refrigerando-me por dentro... Assim chegamos até a praça da Estação João Felipe. Descendo de volta a João Moreira, subimos até a Praça dos Leões, e acabou as pilhas da minha câmera. Antes de chegarmos à Praça do Ferreira paramos para almoçar já mortos de fome e com a cabeça esturricando por causa do sol inclemente. Na saída do almoço, com os buchos à ponto de espocar devido à duas coca-colas que cada um tomou, demos a volta, ou como diríamos no melhor cearês, arrudiamos a Praça José de Alencar. Voltamos então ao ponto inicial, descendo a Conde D'Eu e subindo pela Rufino de Alencar. De volta à Praça do Cristo Redentor, ainda comprei a Playboy em 3D da Larissa Riquelme, para ver se a tecnologia ali é tão boa quanto à do cinema. Claro que pensando em apresentar meus projetos assim daqui pra frente (apesar da Isabelle ter confiscado a revista...)!!!

O mar (norte) está à esquerda. Essa linha em amarelo é o que caminhamos. Começamos lá em cima, à esquerda, no Dragão do Mar.

A música que acompanhou o vídeo chama-se 5 Eiffell e é de um grupo chamado Acoustic Guitars. O cd todo é sensacional. Procurem!
Aproveitando que falei de num sei quantos nomes de ruas, lembrei daquele poema do Manuel Bandeira "Veneza Americana", em que ele diz:



"(...) Rua da União...


Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância


Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido (...)"


Colocarei então aqui uma lista com os nomes antigos das ruas e mais alguns comentários colhidos no livro História abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a cidade amada, de Mozart Soriano Aderaldo e publicado pela Imprensa Universitária da UFC em 1974:



"Rua General Bezerril – Rua do Quartel 
Av. Alberto Nepomuceno – Rua de Baixo 
Rua Castro e Silva – Rua das Flores 
Praça General Tibúrcio – Praça do Palácio 
Rua São José – Beco das Almas 
Rua Floriano Peixoto – Rua da Boa Vista ou Rua da Alegria 
Rua João Moreira – Rua Nova de Fortaleza 
Rua Governador Sampaio – Beco Apertada Hora 

E se refere João Brígido ao Beco Apertada Hora, que é a atual Rua Governador Sampaio, que se escondia por trás de certo trecho do Pajeú e cujo nome mais ou menos explica a sua utilização. 

Rua Barão do Rio Branco – Rua Formosa 
Rua Pedro Borges – Rua do Cajueiro 
Rua Tristão Gonçalves –Rua do Trilho (se passa A Normalista de Adolfo Caminha) 
Rua Major Facundo – Rua da Palma 
Rua Liberato Barroso – Rua das Trincheiras 
Rua Pedro Pereira – Rua São Bernardo, Travessa Amélia 
Rua Pessoa Anta – Rua da Praia 
Rua Dragão do Mar – Rua da Alfândega 
Rua José Avelino – Rua do Chafariz 
Rua Rufino de Alencar – Rua da Ponte 
Av. Monsenhor Tabosa – Rua do Seminário 
Rua Tenente Benévolo – Travessa da Conceição 
Rua Pereira Filgueiras – Rua do Paço 
Rua Costa Barros – Rua da Aurora ou Rua do Sol 
Av. Santos Dumont – Rua do Colégio 
Rua Franklin Távora – Travessa São Luís 
Rua Pinto Madeira – Rua do Córrego 
Travessa Baturité – Travessa da Escadinha 
Rua Boris – Travessa da Praia 
Rua 25 de Março – Rua do Pajeú 
Rua Coronel Ferraz – Travessa do Colégio 
Av. Dom Manuel – Boulevard da Conceição 
Rua Rodrigues Júnior – Rua da Glória 
Rua J. da Penha – Rua da Soledade 
Rua Nogueira Acioly – Rua da Aldeota 
Rua Gonçalvez Lêdo – Rua dos Guajerus 
Travessa Crato – Travessa do Mercado 
Rua Senador Alencar – Travessa das Hortas 
Rua São Paulo – Travessa da Tesouraria 
Rua Visconde de Sabóia – Travessa da Cacimba 
Rua Guilherme Rocha – Rua do Ouvidor 
Rua Pedro I – Travessa da Alegria 
Av. Duque de Caxias – Boulevard do Livramento 
Av. Alberto Nepomuceno – Rua da Ponte 
Rua Jaime Benévolo – Rua do Açude 
Rua Barão de Aratanha – Rua do Lago 
Rua Solon Pinheiro – Rua da Trindade 
Rua Senador Pompeu – Rua da Amélia 
Rua General Sampaio – Rua da Cadeia 
Rua 24 de Maio – Rua do Patrocínio 
Av. da Universidade – Rua do Benfica 
Av. Visconde do Rio Branco – Calçamento de Messejana 
Rua Castro Carreira – Campo da Amélia 
Praça da Sé – Praça do Conselho 
Praça Cristo Redentor – Praça da Conceição 
Praça Figueira de Melo – Praça do Colégio 
Praça José de Alencar – Praça do Patrocínio 
Praça da Polícia Militar – Praça dos Coelhos 
Praça Clóvis Beviláqua – Praça do Encanamento 
Praça da Bandeira – Praça do Asilo 
Praça Capistrano de Abreu – Praça da Lagoinha 
Praça do Carmo – Praça do Livramento 
Praça dos Voluntários – Praça do Garrote 
Praça dos Mártires – Largo do Paiol 
Praça Valdemar Falcão – Praça Carolina 
Praça do Ferreira – Feira Nova, Praça Municipal e Praça Pedro II 
Praça General Tibúrcio – Largo do Palácio 
Praça Almirante Saldanha – Praça da Alfândega 

O calçamento característico de Fortaleza era feito de pedra tosca, que o espírito de nosso povo chamava de "cearalelepípedo", em contraposição ao paralelepípedo 

Na esquina da Rua Pedro Pereira com a atual Avenida Tristão Gonçalves, havia uma calçada alta, denominada Parada do Chico Manuel, de que se serviam os passageiros que vinham de Maranguape, ou para lá se dirigiam. 

O ano de 1867 assinalou a substituição do óleo de peixe pelo gás carbônico na iluminação pública da cidade. É digno de nota o costume de não serem acendidos os combustores nos dias de lua cheia, costume que se prolongou até 1935, quando teve fim esse tipo de iluminação pública. 

(1895) A capital cearense possuía, ainda, 34 ruas de norte a sul, 27 de leste a oeste, 14 praças, 1607 combustores da pública iluminação a gás, os quais, segundo o autor do registro (Antônio Bezerra), eram os mais elegantes do país. 

Ressalte-se que o autor dessa memória, descrevendo a cidade, enfatiza uma coisa interessante: - o grande número de prédios de madeira, inclusive quatro cafés que existiam nos cantos da Praça do Ferreira, não nos terrenos arruados, mas dentro mesmo do logradouro. 
Um desses cafés, o Java, passou à história literária, sede que foi da “Padaria Espiritual”, movimento intelectual da maior importância para o Ceará."


E vejam que essa será minha próxima campanha! Pela volta dos nomes antigos das ruas do Centro! Sugiro a seguinte intervenção: criamos placas de rua com os nomes antigos, placas grandes e bem diferentes das placas modernas. Podem ter gravuras ou pinturas de artistas locais e daí nós as colocamos acima das placas atuais, como um nome alternativo. Só para fazer pensar no porquê daqueles nomes, fazer a população caminhar por ali procurando enxergar paisagens diferentes, que remetam àqueles nomes. Quem sabe o olhar da população não fique diferente em relação ao Centro?

domingo, 3 de outubro de 2010

os portões do mundo que os avós criaram

Achei interessante o comentário da Angélica sobre minha última postagem porque ela disse que já passou por tantas portas e paredes;  por isso lembrei-me da música que usei em minha apresentação de projeto de graduação. Se chama "Vale do Jucá", do Siba. Vou colocar a letra da música aqui depois. 
Ontem, andei pelo Centro de Fortaleza, ajudando ao Eugênio a garimpar casas que sejam de algum interesse histórico. Só reforçou minha postagem de ontem. A força da grana que ergue e destrói coisas belas é muito forte. Principalmente se os governantes não fazem nada para controlá-la. É lamentável como tantos prefeitos ao longo dos anos deixaram nosso Centro ficar como está. Essa sensação é consideravelmente ampliada quando fazemos pesquisas de como era nossa cidade há alguns anos atrás. E não precisa ir muito longe. Menos de 100 anos. Fortaleza era uma cidade com certeza charmosa. Havia um certo padrão nos gabaritos das casas, dois, no máximo três pavimentos. Haviam fachadas ecléticas, quase nunca luxuosas, mas sempre de bom gosto, delicadas e bem influenciadas pela Belle Epóque. As ruas de paralelepípedo. Um paralelepípedo grande, bom, bonito, que inclusive gerava orgulho nos habitantes, que o chamava de "cearalelepípedo". O mais triste é saber que ele está escondido, encantado por debaixo do asfalto, asfalto que ferve, abafa e que, como se já não bastasse o sol para torrar nossos miolos de cima para baixo, o asfalto faz o favor de uniformizar a queima e bota calor de baixo pra cima também.
O trabalho de garimpo ali é dificílimo. Muito mais que difícil, é triste. Uma fachada que ainda resiste com sua alma antiga, ao tentar exibir sua data de nascimento, mostrando sua idade avançada, como que um grito, um protesto, um pedido de um mínimo de respeito, é reprimida por placas enormes de latão, com uma propaganda, uma marca, um ferro em que o capitalismo desenfreado vai marcando à fogo nossa história.
É triste saber que o desrespeito e a indiferença não é só com as gerações futuras. O mundo em que viverão nossos filhos e netos será quente, feio, monótono e principalmente desprovido de referências e de identidade, porém o mundo em que viveram nossos avós está sumindo, encantando-se como um Dom Sebastião por detrás do asfalto, do concreto, das placas. Os portões do mundo que os avós criaram está cada vez mais difícil. Para encontrá-lo agora, só com um garimpo mágico, emocional, sobrenatural. 
E pensar que um dia seremos os avós que criaram os portões desse novo mundo...
Vou mostrar então um vídeo com os slides finais da minha apresentação. Quando passei de slide para vídeo os tempos de transição das imagens ficaram diferentes, assim, as imagens acabarão um pouco antes da música, mas vale ficar ouvindo até o fim. O tema é bem parecido, mas ao invés  de trabalhar no centro, fui procurar referências na Praia de Iracema. Um dia explico melhor o projeto. Aí está o vídeo, a música e a letra.



Vale do jucá
(Siba e Fuloresta)

Era um caminho
quase sem pegadas
onde tantas madrugadas
folhas serenaram
era uma estrada 
muitas curvas tortas
quantas passagens e portas
ali se ocultaram
era uma linha
sem começo e fim
e as flores desse jardim
meus avós plantaram

era uma voz
um vento, um sussurro
relâmpago, trovão e murro
luz que se lembraram
uma palavra quase sem sentido
um tapa no pé do ouvido
todos escutaram
um grito, um odo 
perguntando aonde
nossa lembrança se esconde
meus avós gritaram.

Era uma dança
quase uma miragem
cada gesto, uma imagem
dos que se encantaram
um movimento, um traquejo forte
 passado, risco e recorte
se descortinaram
uma semente no meio da poeira
chã da lavoura primeira
meus avós dançaram

uma pancada
um ronco, um estralo
e outros pés e um cavalo
guerreiros brincaram
quase uma queda
quase uma descida
uma seta remetida
as mãos se apertaram
era uma festa
chegada e partida
saudações e despedida
meus avós choraram.

Onde estará
aquele passo tonto
e as armas para o confronto
onde se ocultaram 
e o lampejo da luz estupenda
que atravessou a fenda
e tantos enxergaram
ah! se eu pudesse
só por um segundo
rever os portões do mundo
que os avós criaram.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

demolição

Voltando para a idéia primeira do blog, de fazer um cd de poemas cantados, e se possível, dodecafônicos, vou postar mais um poema meu. Eu falei que ia, de vez em quando, postando um poema, intercalando com tudo aquilo que me inspira, e que vai formando minha bagagem de informações. Vou postar esse agora, porque enfim, a especulação imobiliária bateu à minha porta.

(Quero fazer um parêntesis. Não tem nada a ver com o que eu vinha falando. Meu avô quando vivo andava com cadernetinhas no bolso em que ele ia anotando tudo o que via de interessante na rua ou de boas idéias que ia tendo. Talvez se fosse hoje em dia ele tivesse um blog. De modo que mamãe mexendo nessas cadernetinhas descobriu uma adivinhação que ele anotou há pelo menos uns 50 anos atrás... pode ser mais tempo. A adivinhação era assim: "Quando é que se abre uma porta aberta?".  Resposta no final do texto! hahaha.)

Retomando minha linha de raciocínio original, eu dizia que enfim a especulação chegou aqui. Querem comprar nossa casa e transformar tudo aqui em prédio. É possível que ela nos vença. Basta vencer o papai. Não o imagino como um senhor Fredericksen em sua casinha de jardim verde cercado por arranha-céus, então creio que mais cedo ou mais tarde a força da grana que ergue e destrói coisas belas vai destruir o que de mais belo podemos chamar de nosso. Não a casa em si, como casca, que apesar de ser uma ótima casca, o que de mais bonito há nela é o que ela abriga. É o seu recheio. São os cantinhos da minha infância, meus esconderijos. Minhas alegrias, meus choros, minhas tristezas. Cada pedacinho de parede contém minha vida. E não só a minha. De minhas irmãs e também de meus pais. No meu caso é que contém minha vida toda. Porém do papai, contém sua alma. Me imagino em seu lugar. A maior alegria de um sujeito deve ser construir sua casa, levar sua mulher, seus filhos. Você mesmo construir. Deve ser a maior satisfação. Acho que por isso ele nunca terminou a casa. Sempre, todos os anos, ele faz uma reforma. Muda um quarto, pinta a sala, constrói um banheiro. É uma forma de prolongar aquela satisfação primeira. Assim é que fiz esse poema a seguir. Espero que gostem.

Sangue nas veias
(João Lucas)

O sangue que corre
nas veias da minha casa
é A positivo.
Eu sei, pois é o próprio
sangue do meu pai.
Papai é um passarinho
que encontrou sua árvore
para fazer morada.
E nós, pedimos a papai
para ser nossa árvore.
Sempre noto uma lágrima
em seu rosto vivido
quando noto esta casa
por lá detrás de suas pupilas.
Não há de haver prazer
maior que construir-se,
construindo-nos em
em solidíssima fundação.
Quando demolirem minha casa
só peço por favor para que
não a deixem sangrar muito. 




resposta da adivinhação: "Quando Berta bate à porta!"