sexta-feira, 10 de setembro de 2010

campanhas (1)



Pues! Movido pela força das propagandas eleitorais, resolvi a partir de hoje, lançar campanhas neste blog. Paciência amigos! Não são campanhas eleitoreiras mas sim, campanhas lúdicas, com a finalidade de mudar coisinhas em nossa cidade e, conseqüentemente, em nossas vidas. Espero ser ajudado por mentes mirabolantes que leiam meus escritos para criarmos intervenções urbano/artísticas que divulguem e ponham em prática essas campanhas. Já tenho algumas em mente como por exemplo, a nobre peleja lançada pelo genial jornalista e poeta cearense, cratense, Xico Sá (não deixem de ver o seu site!) pela volta permanente do cafuné, quem sabe outra em prol dos antigos nomes das ruas do centro de Fortaleza (depois divulgo uma lista com esses nomes), ou uma para desenterrar os paralelepípedos do centro... enfim... de uma por uma vamos fazendo nossos alardes, nossas intervenções.

Porém, a primeira de todas, quem a gritou pela primeira vez em meu ouvido foi meu professor de música, na época em que ainda fazia faculdade de música lá na UECE, o super-mega flautista Heriberto Porto. É a CAMPANHA EM PROL DAS ÁRVORES FRUTÍFERAS, no final das contas, uma campanha contras as frutas de geladeira. Afinal, nada melhor do que caminhar pelos "agradáveis", "confortáveis" e "belíssimos" passeios de Fortaleza e poder esticar a mão direita e colher um caju, esticar a mão esquerda e colher, chupar e se lambuzar com uma manga ainda quente, recém-colhida (que mamãe não veja essa postagem e saiba que eu ando chupando manga quente!). Urbanistas, parem de indicar pés de ficus-Benjamim em seus projetos, pés de Nim, de Mini-lacre! 
Enfim, a primeira providência que sugiro que tomemos é pelo menos cuspir os caroços daquela tangerina pokan, daquela laranja-lima, daquela melancia pelos terrenos baldios e canteiros-centrais da cidade!
Mais sugestões urgente!!
E mãos à obra!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mosaicos

Este é um pensamento que me ocorre quando percorro as calçadas de Fortaleza.
Desde sempre muito me agradou a proposta Armorial de Ariano Suassuna, de criar uma arte erudita brasileira a partir das manifestações populares de nosso povo e de nossa terra. É esta visão realmente sistêmica que me alegra. Distinguir as informações contidas no ambiente, recriá-las e formar uma estrutura coesa mas flexível, que forme, a partir de nossa essência, um modo de vida que nos valorize, nos forneça identidade e um contínuo fluxo de informações que viabilize um futuro digno.
É essa contextualização que acho imprescindível em nossa arte. Ela deve partir de uma maneira diferente de enxergar nossa cidade, nosso povo e nossa cultura. E essa maneira diferente deve render saída para qualquer manifestação artística, desde o design de móveis, talheres, utensílios de cozinha, às próprias comidas, roupas, músicas, arquitetura e vai além!


Imagine-se agora caminhando pelas calçadas de Fortaleza. A cada casa que você atravessa, o passeio se modifica. Uns têm plantinhas, outros cerâmicas, outros são apenas de concreto. Há culturalmente em nosso povo o costume de se apropriar da calçada, costume que provavelmente veio do hábito de sentar-se no final do dia com a família em cadeiras de balanço para um gostoso bate-papo. A calçada é uma continuação da casa que vai além muros. É uma sala de estar externa. Porque então vem um urbanista antipático e padroniza a paginação das calçadas tornando-as frias e impessoais? Tudo bem em se conseguir uma caminhabilidade e uma vegetação que forneça sombra para isso. Mas porquê seguir um padrão Champs-Elisée? Eis aqui a chave. Fortaleza, ao contrário de Paris não possui sua história contada como uma heróica Epopéia, mas sim pequenas crônicas e contos, muitos deles bastante jocosos! Fortaleza é um mosaico de pequenas histórias divertidas, interessantes, engraçadas, tristes. É como nossas calçadas: um grande mosaico de pequenas salas de estar, em que o povo – esse sim é o protagonista – é que põe a cadeira de balanço em roda e vai falar da vida alheia, olhar a rua, rir, fazer amizade...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

um aboio para o tanger da vida

Meu personagem de hoje é uma figura tão interessante que mais parece ter sido removido diretamente de um livro do Monteiro Lobato. E realmente ele é um desses sujeitos que existem para que a história não morra nunca. Creio que a cada geração nasce um homem-referência desses que servem de inspiração pra Monteiros, Guimarães, Suassunas etc. E meu personagem é um deles. Não perde em nada para o Chicó, aquele que enche a cabeça de João Grilo com suas histórias fabulosas. Seu nome perdeu-se no tempo, é conhecido apenas por "Baé". Tem a pele estragada de quem esturricou muitos anos no sol do sertão, assim, sua aparência é a de ter bem mais idade do que realmente deve ter, se bem que sua idade também deve ter-se perdido na história ou em uma de suas histórias...
O Baé é uma espécie de jóia de família. Vem conosco desde meu bisavô. Andava com ele na garupa do jumento, ainda menino, enquanto meu bisavô dava-lhe beliscões na perna. Ontem, nos contou na hora do almoço, que quando meu bisavô morreu o mundo acabou-se pra ele. Mas que nada. Estava apenas começando. Viveu aventuras com meu tio, o irmão mais velho da mamãe, que foi criado pelos avós. Aventuras para "Peixe Grande" nenhum botar defeito. E que assim como em Peixe Grande, não dá pra saber o que é mesmo verdade e o que é pura arte, estética, embelezamento. Mas isso também não importa.
Agora, o Baé já não está mais na fase de viver suas aventuras, mas de contá-las. Chega um instante em  que se levanta e vai pra casa, dizendo que já está cansado de tanto inventar. Mas ele agora está aqui em minha casa, veio de sua terra passar uns dias conosco, enquanto opera-se de uma catarata. Aproveitou e nos presentou com este aboio e esta canção que agora eu também os presenteio. Espero que gostem. Um forte abraço!



Enquanto cantava, um avião sobrevoou nossa cabeça. O piloto parecia estar querendo acompanhá-lo na cantoria e só tinha as turbinas como instrumento...

O efeito de jodl são esses golpes na voz, em que numa mesma emissão, alterna-se rapidamente uma nota de peito e uma nota de cabeça. Encontra-se muito o jodl entre os pigmeus africanos. Em quais andanças por esse mundo o Baé aprendeu a fazer isso é que eu acho que não vamos descobrir nunca!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Lamentos do Brasil

"Ninguém se melindrará com a minha poesia porque ninguém a lerá."
de Thomas Hardy, epílogo do livro "Memorial da Alma" de Antonio Justa.

Aproveitando as comemorações pátrias de independência, lembrei da poesia de um cearense (pelo menos assim o sei), chamado Antonio Justa (para quem o conhecia apenas por ser nome de rua, poderá agora ficar conhecendo-o um pouco melhor!). Jornalista e poeta, escreveu esse fenomenal poema, extremamente atual, intitulado "Lamentos do Brasil". Quem quiser conhecer um pouco mais sobre sua vida, pode clicar aqui.

Lamentos do Brasil
(Antonio Justa)

Mandam-me festejar o sete de setembro,
mas eu nunca fui livre e se fui não me lembro...
Obrigam-me a exultar cada treze de maio,
mas eu, pobre de mim, da escravidão não saio...
Sou o Brasil palhaço! Encangam-me a cerviz,
E minha obrigação é mostrar-me feliz...
Para glória de alguns, eu muitas vezes rio
De alma cheio de pranto e estômago vazio...

E quando alguma vez meu pendão se desfralda,
seu amarelo de ouro e o verde de esmeralda
que o vento a sussurrar, com carinho, balança,
são quase uma ironia! A riqueza e a esperança
bordam com viva cor a mortalha que cobre
Uma gente infeliz, desiludida e pobre!...

Se em mim reinava outrora uma justiça errônea,
tive de suportá-la - era um Brasil colônia!
Se a lei me impôs mais tarde o nó duro e funério,
tive de sujeitar-me - era um Brasil império...
Hoje a lei é a do forte, é a do que rouba e mata,
e (até me dói dizer) sou País democrata...

Democrata porque para o meu mal se elege
o que se diz cristão e é desumano e hereje!
Democrata porque, para o que estuda e pensa,
há muito já se deu liberdade de imprensa,
contanto que ele diga e diga em alto e bom som,
que eu tenho liberdade e o meu governo é bom...
Democrata porque posso morrer de fome,
sem que se remedie o mal que me consome!
Democrata porque podem crianças nuas
morrer sem pão, sem lar, nas calçadas das ruas.

Ah! meu destino agora é viver sem justiça,
ouvindo os tristes ais de uma raça mestiça,
vendo um triste a chorar, outro pálido e langue,
este a tremer de febre, aquele a escarrar sangue,
aquele outro a exibir chagas sujas medonhas,
de onde escorrem por vezes fedorentas peçonhas,
e só porque lhes falta (ó certeza infernal!)
um vidro de remédio, um leito de hospital!

Ai! Eu sou um País atrofiado e rude!
Falta-me educação e falta-me saúde!
Em mim viceja o crime e a instrução não se vê.
Tragam-me às mãos um livro: a carta de A.B.C....
Façam que eu seja grande e que eu sirva de exemplo,
mandem descer o pano às cenas que contemplo.

Até em Tribunais, de que já não me valho,
há quem venda a justiça, às vezes, a retalho,
como carne de boi sobre um balcão de açougue.
Por que então impedir que a minha voz regougue,
e obrigar-me a fingir que não olho e não vejo
macular-se a justiça este sol benfazejo
por quem a voz de Cristo ainda agora se escuta,
e Sócrates bebeu a taça de cicuta?

Que culpa tenho eu de ver de olhos nevoentos,
deixar-se de fazer a lei nos parlamentos,
porque tal senador, num desplante infeliz,
deixa a voz do dever, pela da meretriz?

Foi pra isso então que numa forma estranha
meu nome andou aí de campanha em campanha,
como um brado de fé, como um grito de paz,
formando aqui e ali cordões eleitorais?

Oh! Pelo amor de Deus, tenham pena de mim!
Ninguém pode cantar tão torturado assim!
Eu já não posso mais mostrar-me satisfeito,
Tendo essa dor infinda e essa mágoa no peito!

Curem-me a dor brutal sob a qual me desmembro,
extingam-me a desgraça em que eu triste recaio,
e alegre eu passarei os setes de setembro!
E alegre exultarei pelos trezes de maio!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

um terreno baldio

Agora que aprendi a colocar um player no blog, vou postar minhas poesias assim, recitadas.


Um terreno baldio
(João Lucas)

Vizinho à minha casa
tem um terreno baldio.
Ontem havia um camaleão
sobre o muro do terreno.
Estava cinza, assustado,
ofegante, acuado
e com a cauda pela metade.
Era mesmo um camaleão?
Ou o que vi foi a cidade?



domingo, 5 de setembro de 2010

pedra que a vida flor


Eu ia hoje dar uma de Rob Gordon, o John Cusack de Alta Fidelidade e criar um top5. Seria um top5 de músicas e/ou poemas urbanísticos. Desses que muito bem retratam uma cidade e que na maioria das vezes falam bem mais sobre sua essência do que muitos tratados urbanos técnicos. Porém, enquanto pensava em minha lista, lembrei-me de uma música que eu mesmo fiz há alguns anos, junto com o Osvaldim (fizemos mais composições juntos, devagarinho elas vão aparecendo!) e resolvi fazer a postagem falando apenas dela, de modo que o top5 ficará para outro dia.
Essa foi uma gravação feita em julho de 2004, ao vivo, no Theatro José de Alencar, pela banda Fumaça da Pólvora, grupo que eu participava, tendo sido um dos fundadores tocando acordeão e rabeca. Hoje a banda já nem existe mais. Mas enquanto durou foi uma época bem interessante em minha vida, de bastante produção. Deixou saudades. 
O título da música é exatamente a idéia que quero passar com esse blog, falando de arquitetura. Pedra que a vida flor. Pedra é a construção, o concreto, o asfalto, a cidade... E é somente a vida, com suas relações, com o seu tempo, com sua arte do encontro (embora haja tantos desencontros), que pode fazer essa pedra brotar, que pode fazer flor essa pedra, através do carinho, da delicadeza e do afeto.
A música é então meu canto. Minha cidade, Fortaleza, descrita por um rapaz que não tinha nem seus vinte anos ainda (estou dizendo isso pra que vocês dêem um desconto nas exigências literárias!). Sem mais delongas, vamos ao que interessa, a música:




Pedra que a vida flor
(João Lucas/Osvaldo Costa)

Eu ia correndo
olhando o sol
eu ia (quase!) amando
nesse calor.
Aonde a vida é triste,
aonde a vida for.
Aonde o sol me leve
e leve só eu vou.

Só era mentira 
aquele mar.
Não era artista, 
textura e cor.
Na Fortaleza bela
o que do mar restou.
O que me avessa a pele:
o verso avessa a dor.

Eu não sabia 
que estavas só.
Eu não vivia
do teu pulsar.
A boemia antiga
o vento mau levou.
A Iracema era,
hoje não sei quem sou.

Um bem fica
no coração:
defesa inútil
pra solidão.
Lá onde o asfalto apaga
marcas do meu avô.
Na praça o beijo aponta.
O amor se acabou.

Era tão verde 
aquele mar.
Mas foi espuma
o que restou.
No litoral da vida
a vida se afogou.
Na luz daquele dia
perdi o teu calor.

Eu não queria
dormir tão só.
Eu não pedia
sonhos sem cor.
Eu só queria o tempo
que o Tempo arrastou.
Florindo feito pedra,
pedra que a vida flor.

Voz: Emanuela Ramos
Acordeão: João Lucas (a música é minha mesmo, posso fazer besteira à vontade!)
Violão 1 e assobio: Rogério Jales 
Violão 2: Davi Teixeira
Baixo: Levi Teixeira
Bateria: Nildo Bastos
Percussões: Juliano Smith, Rafael e Marcelo Santos

Um forte abraço a todos!



sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Porque hoje é sábado!

"Niemeyer" - uma tirinha de Carlos Ruas.
Já que hoje é sábado, quero apresentar a vocês esse site, GE-NE-AAAAAL, chamado "um sábado qualquer". São tirinhas de Carlos Ruas e que já ultrapassaram a Mafalda em minha preferência! Seus personagens são Deus, Adão, Eva, Caim, Luciraldo e eles estão sempre recebendo convidados ilustres como Niemeyer, Nietzsche, Darwin, Galileu, o papa, Raul Seixas... A cada nova tirinha eu dobro às gargalhadas e corro para mostrar à Isabelle, que apesar de também achar genial, para meu estranhamento, nunca ri! Na verdade eu nunca a vi rindo de piada nenhuma, em compensação, ri de cada outras coisas... Se o Sávio estiver lendo esse blog que me diga! Aí está o link para o site:


Desejo gargalhadas divinas à todos!
E porque hoje é sábado, aproveito para postar também um dos meus poemas preferidos, de Vinicíus de Morais. O poema do dia da criação. Aí vai!
Saravá!


O dia da criação

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por vias das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo o mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um gardem-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado


III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da esfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, nem serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior dos instintos dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, frequentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.


Ler mais: 
http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=799#ixzz0yWK7B3aA
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"Bêbado 4", de Carlos Ruas