quinta-feira, 7 de outubro de 2010

os muros

Depois de todo aquele meu devaneio sobre muros, muralhas, fortalezas, resolvi postar um poema sobre os muros. Segue:

Os muros
(João Lucas)

Só há silêncio
por detrás dos muros.
A rua segue sua vida
tão repleta de vazios,
que nem se lembra
de passar sua maquiagem.
Fachadas são perfumes
de Bugaris e roseiras
que se escondem
no silêncio dos sepulcros.
Pois só há silêncio
por detrás dos muros!

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A Fortaleza velha

Como prometi que colocaria algumas fotos antigas de Fortaleza, o farei hoje. Vou começar com fotos dos anos 30 e 40. Dá pra ver que era outra cidade. As ruas eram bem mais espaçosas, não havia asfalto e a arborização era bem maior. Realmente era uma cidade bem mais humana. Não consigo entender essa visão de que o progresso para chegar tem que desfazer o que já existia. Não sei se essa é exatamente uma visão antiga mas vovó ainda torce para que derrubem "as velharias" e construam prédios modernos.
A Teoria dos Sistemas nos fala que nossas experiências, vivências, enfim, nossa história, nos fornece um arsenal de informações, ou seja, dados, percepções, para que possamos ter munição para sobreviver no mundo. É a construção de uma função memória, que nos fornece suporte para enfrentar as situações cotidianas e superá-las cada vez mais facilmente. A função memória é primordial para as intenções de qualquer sistema, que é permanecer o máximo possível no tempo. Sem ela não há como se falar em permanência. Ou seja, sem passado não há futuro. 
Peço permissão para divagar um pouco. Escrevi isso para falar da cidade de Fortaleza como sistema. Que mecanismos ela utiliza para manter viva uma função memória, preservando sua história e suas informações? Por um momento, pensei que nenhum. Fortaleza irá se degenerar como cidade e, tal qual uma Roma antiga, irá se decompor em pequenas cidades-estado, ou melhor, casas-estado, individuais, unifamiliares, cercadas de grandes muralhas, onde será sempre perigoso ir à rua, transformada em constante campo de batalha? Ir ao super-mercado virará a função do homem, do macho, que como se estivesse indo à caça, buscando o alimento diário, e pra isso, haverá de armar-se até os dentes se quiser voltar vivo para o interior de seus muros.
Após essa ficção científica (que acho que já ocorre, o que fiz foi só exagerar um pouco a situação atual), quero terminar dizendo que talvez, a cidade como sistema, afim de preservar sua função memória, crie figuras como nós, que nos interessamos em pesquisar, em manter, em divulgar seu passado, sua cultura, sua identidade. Talvez nós possamos fazer algo por essa cidade, talvez ela não precise cair feito um Império Romano, e possa voltar a ser uma cidade bucólica e agradável como já fora outrora... talvez...

A Av. Almirante Barroso, essas casas ficam pertinho do Dragão do Mar.

Um transporte que ligava Fortaleza a Russas.

Uma mansão na Av. Santos Dumont, hoje está instalado o TRT.

outra foto da Santos Dumont

Santos Dumont também

Rua Floriano Peixoto, na esquina da Praça do Ferreira, este é o prédio em que está o Lescale.

Eis a Praia de Iracema.

Uma foto aérea da Praça do Ferreira, sacada do Excelsior Hotel.

Outra foto aérea. Aqui vemos o prédio da Sefaz, a catedral antiga,  a Av. Alberto Nepomuceno...

Os bondes passando em frente à antiga catedral.

O edifício onde ficava a faculdade de Direito, hoje é o museu do Ceará.

O Excelsior Hotel. É aquele que tem um coro de criancinhas no Natal.

Av Floriano Peixoto. Esse é o prédio da Caixa.

O já falecido palácio do Plácido. Ficava na Santos Dumont, na praça Luíza Távora.

Uma foto aérea.

Outra do Excelsior. Isso é na verdade, um cartão postal.

O Theatro José de Alencar.

Essa foto é na Praia de Iracema!

Aqui é na Volta da Jurema!

A antiga catedral vista de cima. Por trás o palácio do Bispo, hoje sede da prefeitura.

Casa na esquina da Av. Alberto Nepomuceno. Hoje abriga a Sefaz.

Mais um palacete.

A Igreja do Pequeno Grande.

O Mucuripe.

A praça da Escola Normal.

O Cine Moderno. 
A Rua Major Facundo. Dá pra reconhecer?

O Cine Majestic. Morreu queimado.

O Café Java, na Praça do Ferreira. Essa foto é de 1908. Aí funcionou a Padaria Espiritual.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

O passeio pelo Centro

Vejam só que mancada. Ontem falei, falei, falei e falei do Centro e coloquei fotos da Praia de Iracema. Sem problemas. Hoje passei as fotos da minha máquina para o computador. Não tem fotos de todo o passeio porque as pilhas da câmera não foram capazes de abarcar o percurso completo. Depois o Eugênio me manda as da sua máquina e fica tudo perfeito. Notem o absurdo que são os postes de iluminação pública, com seus fios e luminárias que mais parecem monstros de desenho animado. São uma das coisas que mais escondem os pobres prédios abandonados... Acho que vocês merecem também fotos antigas de lá, para comparar, então amanhã as postarei. Hoje terão apenas as que a gente tirou. Fiz um videozinho rápido, meia-boca, para apresentá-las. Não vi maneira melhor de fazer isso. O Eugênio fez o favorzão de mandar um pedaço, de um pedaço, de um pedaço, de um pedacinho de um pedaço do projeto dele, que é o primeiro rabisco indicando o trecho que a gente percorreu. É bom para localizar vocês. De qualquer forma, começamos pelo Teatro São José, ou o que resta dele, pela frente do Dragão do Mar, na esquina da Monsenhor Tabosa com Dom Manuel. Descemos pela Rua Rufino de Alencar, aquela que sai por detrás da Catedral, em frente ao Paço Municipal. Descemos por aquelas ruazinhas na lateral da Catedral, embiocamos por aqueles comércios de grão, raízes, cachaças etc, que fica no miolo da quadra, entre a Governador Sampaio e Conde D'Eu. Caímos na Travessa Crato. Lá tinha um velhão artista, tocando violão e cantando com aquela voz de Nelson Gonçalves; depois começaram um chorinho à base de sanfona. Daí caminhamos até a Rua João Moreira e aí chegou a parte mais trabalhosa, pois demos a volta em todas as quadras que se limitam com a João Moreira, garimpando cada casinha. Naquele calor de lascar, tomei uma das melhores cervejas dos últimos tempos, apesar de não passar de uma Skol de latinha, desceu redondíssima, refrigerando-me por dentro... Assim chegamos até a praça da Estação João Felipe. Descendo de volta a João Moreira, subimos até a Praça dos Leões, e acabou as pilhas da minha câmera. Antes de chegarmos à Praça do Ferreira paramos para almoçar já mortos de fome e com a cabeça esturricando por causa do sol inclemente. Na saída do almoço, com os buchos à ponto de espocar devido à duas coca-colas que cada um tomou, demos a volta, ou como diríamos no melhor cearês, arrudiamos a Praça José de Alencar. Voltamos então ao ponto inicial, descendo a Conde D'Eu e subindo pela Rufino de Alencar. De volta à Praça do Cristo Redentor, ainda comprei a Playboy em 3D da Larissa Riquelme, para ver se a tecnologia ali é tão boa quanto à do cinema. Claro que pensando em apresentar meus projetos assim daqui pra frente (apesar da Isabelle ter confiscado a revista...)!!!

O mar (norte) está à esquerda. Essa linha em amarelo é o que caminhamos. Começamos lá em cima, à esquerda, no Dragão do Mar.

A música que acompanhou o vídeo chama-se 5 Eiffell e é de um grupo chamado Acoustic Guitars. O cd todo é sensacional. Procurem!
Aproveitando que falei de num sei quantos nomes de ruas, lembrei daquele poema do Manuel Bandeira "Veneza Americana", em que ele diz:



"(...) Rua da União...


Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância


Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido (...)"


Colocarei então aqui uma lista com os nomes antigos das ruas e mais alguns comentários colhidos no livro História abreviada de Fortaleza e crônicas sobre a cidade amada, de Mozart Soriano Aderaldo e publicado pela Imprensa Universitária da UFC em 1974:



"Rua General Bezerril – Rua do Quartel 
Av. Alberto Nepomuceno – Rua de Baixo 
Rua Castro e Silva – Rua das Flores 
Praça General Tibúrcio – Praça do Palácio 
Rua São José – Beco das Almas 
Rua Floriano Peixoto – Rua da Boa Vista ou Rua da Alegria 
Rua João Moreira – Rua Nova de Fortaleza 
Rua Governador Sampaio – Beco Apertada Hora 

E se refere João Brígido ao Beco Apertada Hora, que é a atual Rua Governador Sampaio, que se escondia por trás de certo trecho do Pajeú e cujo nome mais ou menos explica a sua utilização. 

Rua Barão do Rio Branco – Rua Formosa 
Rua Pedro Borges – Rua do Cajueiro 
Rua Tristão Gonçalves –Rua do Trilho (se passa A Normalista de Adolfo Caminha) 
Rua Major Facundo – Rua da Palma 
Rua Liberato Barroso – Rua das Trincheiras 
Rua Pedro Pereira – Rua São Bernardo, Travessa Amélia 
Rua Pessoa Anta – Rua da Praia 
Rua Dragão do Mar – Rua da Alfândega 
Rua José Avelino – Rua do Chafariz 
Rua Rufino de Alencar – Rua da Ponte 
Av. Monsenhor Tabosa – Rua do Seminário 
Rua Tenente Benévolo – Travessa da Conceição 
Rua Pereira Filgueiras – Rua do Paço 
Rua Costa Barros – Rua da Aurora ou Rua do Sol 
Av. Santos Dumont – Rua do Colégio 
Rua Franklin Távora – Travessa São Luís 
Rua Pinto Madeira – Rua do Córrego 
Travessa Baturité – Travessa da Escadinha 
Rua Boris – Travessa da Praia 
Rua 25 de Março – Rua do Pajeú 
Rua Coronel Ferraz – Travessa do Colégio 
Av. Dom Manuel – Boulevard da Conceição 
Rua Rodrigues Júnior – Rua da Glória 
Rua J. da Penha – Rua da Soledade 
Rua Nogueira Acioly – Rua da Aldeota 
Rua Gonçalvez Lêdo – Rua dos Guajerus 
Travessa Crato – Travessa do Mercado 
Rua Senador Alencar – Travessa das Hortas 
Rua São Paulo – Travessa da Tesouraria 
Rua Visconde de Sabóia – Travessa da Cacimba 
Rua Guilherme Rocha – Rua do Ouvidor 
Rua Pedro I – Travessa da Alegria 
Av. Duque de Caxias – Boulevard do Livramento 
Av. Alberto Nepomuceno – Rua da Ponte 
Rua Jaime Benévolo – Rua do Açude 
Rua Barão de Aratanha – Rua do Lago 
Rua Solon Pinheiro – Rua da Trindade 
Rua Senador Pompeu – Rua da Amélia 
Rua General Sampaio – Rua da Cadeia 
Rua 24 de Maio – Rua do Patrocínio 
Av. da Universidade – Rua do Benfica 
Av. Visconde do Rio Branco – Calçamento de Messejana 
Rua Castro Carreira – Campo da Amélia 
Praça da Sé – Praça do Conselho 
Praça Cristo Redentor – Praça da Conceição 
Praça Figueira de Melo – Praça do Colégio 
Praça José de Alencar – Praça do Patrocínio 
Praça da Polícia Militar – Praça dos Coelhos 
Praça Clóvis Beviláqua – Praça do Encanamento 
Praça da Bandeira – Praça do Asilo 
Praça Capistrano de Abreu – Praça da Lagoinha 
Praça do Carmo – Praça do Livramento 
Praça dos Voluntários – Praça do Garrote 
Praça dos Mártires – Largo do Paiol 
Praça Valdemar Falcão – Praça Carolina 
Praça do Ferreira – Feira Nova, Praça Municipal e Praça Pedro II 
Praça General Tibúrcio – Largo do Palácio 
Praça Almirante Saldanha – Praça da Alfândega 

O calçamento característico de Fortaleza era feito de pedra tosca, que o espírito de nosso povo chamava de "cearalelepípedo", em contraposição ao paralelepípedo 

Na esquina da Rua Pedro Pereira com a atual Avenida Tristão Gonçalves, havia uma calçada alta, denominada Parada do Chico Manuel, de que se serviam os passageiros que vinham de Maranguape, ou para lá se dirigiam. 

O ano de 1867 assinalou a substituição do óleo de peixe pelo gás carbônico na iluminação pública da cidade. É digno de nota o costume de não serem acendidos os combustores nos dias de lua cheia, costume que se prolongou até 1935, quando teve fim esse tipo de iluminação pública. 

(1895) A capital cearense possuía, ainda, 34 ruas de norte a sul, 27 de leste a oeste, 14 praças, 1607 combustores da pública iluminação a gás, os quais, segundo o autor do registro (Antônio Bezerra), eram os mais elegantes do país. 

Ressalte-se que o autor dessa memória, descrevendo a cidade, enfatiza uma coisa interessante: - o grande número de prédios de madeira, inclusive quatro cafés que existiam nos cantos da Praça do Ferreira, não nos terrenos arruados, mas dentro mesmo do logradouro. 
Um desses cafés, o Java, passou à história literária, sede que foi da “Padaria Espiritual”, movimento intelectual da maior importância para o Ceará."


E vejam que essa será minha próxima campanha! Pela volta dos nomes antigos das ruas do Centro! Sugiro a seguinte intervenção: criamos placas de rua com os nomes antigos, placas grandes e bem diferentes das placas modernas. Podem ter gravuras ou pinturas de artistas locais e daí nós as colocamos acima das placas atuais, como um nome alternativo. Só para fazer pensar no porquê daqueles nomes, fazer a população caminhar por ali procurando enxergar paisagens diferentes, que remetam àqueles nomes. Quem sabe o olhar da população não fique diferente em relação ao Centro?

domingo, 3 de outubro de 2010

os portões do mundo que os avós criaram

Achei interessante o comentário da Angélica sobre minha última postagem porque ela disse que já passou por tantas portas e paredes;  por isso lembrei-me da música que usei em minha apresentação de projeto de graduação. Se chama "Vale do Jucá", do Siba. Vou colocar a letra da música aqui depois. 
Ontem, andei pelo Centro de Fortaleza, ajudando ao Eugênio a garimpar casas que sejam de algum interesse histórico. Só reforçou minha postagem de ontem. A força da grana que ergue e destrói coisas belas é muito forte. Principalmente se os governantes não fazem nada para controlá-la. É lamentável como tantos prefeitos ao longo dos anos deixaram nosso Centro ficar como está. Essa sensação é consideravelmente ampliada quando fazemos pesquisas de como era nossa cidade há alguns anos atrás. E não precisa ir muito longe. Menos de 100 anos. Fortaleza era uma cidade com certeza charmosa. Havia um certo padrão nos gabaritos das casas, dois, no máximo três pavimentos. Haviam fachadas ecléticas, quase nunca luxuosas, mas sempre de bom gosto, delicadas e bem influenciadas pela Belle Epóque. As ruas de paralelepípedo. Um paralelepípedo grande, bom, bonito, que inclusive gerava orgulho nos habitantes, que o chamava de "cearalelepípedo". O mais triste é saber que ele está escondido, encantado por debaixo do asfalto, asfalto que ferve, abafa e que, como se já não bastasse o sol para torrar nossos miolos de cima para baixo, o asfalto faz o favor de uniformizar a queima e bota calor de baixo pra cima também.
O trabalho de garimpo ali é dificílimo. Muito mais que difícil, é triste. Uma fachada que ainda resiste com sua alma antiga, ao tentar exibir sua data de nascimento, mostrando sua idade avançada, como que um grito, um protesto, um pedido de um mínimo de respeito, é reprimida por placas enormes de latão, com uma propaganda, uma marca, um ferro em que o capitalismo desenfreado vai marcando à fogo nossa história.
É triste saber que o desrespeito e a indiferença não é só com as gerações futuras. O mundo em que viverão nossos filhos e netos será quente, feio, monótono e principalmente desprovido de referências e de identidade, porém o mundo em que viveram nossos avós está sumindo, encantando-se como um Dom Sebastião por detrás do asfalto, do concreto, das placas. Os portões do mundo que os avós criaram está cada vez mais difícil. Para encontrá-lo agora, só com um garimpo mágico, emocional, sobrenatural. 
E pensar que um dia seremos os avós que criaram os portões desse novo mundo...
Vou mostrar então um vídeo com os slides finais da minha apresentação. Quando passei de slide para vídeo os tempos de transição das imagens ficaram diferentes, assim, as imagens acabarão um pouco antes da música, mas vale ficar ouvindo até o fim. O tema é bem parecido, mas ao invés  de trabalhar no centro, fui procurar referências na Praia de Iracema. Um dia explico melhor o projeto. Aí está o vídeo, a música e a letra.



Vale do jucá
(Siba e Fuloresta)

Era um caminho
quase sem pegadas
onde tantas madrugadas
folhas serenaram
era uma estrada 
muitas curvas tortas
quantas passagens e portas
ali se ocultaram
era uma linha
sem começo e fim
e as flores desse jardim
meus avós plantaram

era uma voz
um vento, um sussurro
relâmpago, trovão e murro
luz que se lembraram
uma palavra quase sem sentido
um tapa no pé do ouvido
todos escutaram
um grito, um odo 
perguntando aonde
nossa lembrança se esconde
meus avós gritaram.

Era uma dança
quase uma miragem
cada gesto, uma imagem
dos que se encantaram
um movimento, um traquejo forte
 passado, risco e recorte
se descortinaram
uma semente no meio da poeira
chã da lavoura primeira
meus avós dançaram

uma pancada
um ronco, um estralo
e outros pés e um cavalo
guerreiros brincaram
quase uma queda
quase uma descida
uma seta remetida
as mãos se apertaram
era uma festa
chegada e partida
saudações e despedida
meus avós choraram.

Onde estará
aquele passo tonto
e as armas para o confronto
onde se ocultaram 
e o lampejo da luz estupenda
que atravessou a fenda
e tantos enxergaram
ah! se eu pudesse
só por um segundo
rever os portões do mundo
que os avós criaram.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

demolição

Voltando para a idéia primeira do blog, de fazer um cd de poemas cantados, e se possível, dodecafônicos, vou postar mais um poema meu. Eu falei que ia, de vez em quando, postando um poema, intercalando com tudo aquilo que me inspira, e que vai formando minha bagagem de informações. Vou postar esse agora, porque enfim, a especulação imobiliária bateu à minha porta.

(Quero fazer um parêntesis. Não tem nada a ver com o que eu vinha falando. Meu avô quando vivo andava com cadernetinhas no bolso em que ele ia anotando tudo o que via de interessante na rua ou de boas idéias que ia tendo. Talvez se fosse hoje em dia ele tivesse um blog. De modo que mamãe mexendo nessas cadernetinhas descobriu uma adivinhação que ele anotou há pelo menos uns 50 anos atrás... pode ser mais tempo. A adivinhação era assim: "Quando é que se abre uma porta aberta?".  Resposta no final do texto! hahaha.)

Retomando minha linha de raciocínio original, eu dizia que enfim a especulação chegou aqui. Querem comprar nossa casa e transformar tudo aqui em prédio. É possível que ela nos vença. Basta vencer o papai. Não o imagino como um senhor Fredericksen em sua casinha de jardim verde cercado por arranha-céus, então creio que mais cedo ou mais tarde a força da grana que ergue e destrói coisas belas vai destruir o que de mais belo podemos chamar de nosso. Não a casa em si, como casca, que apesar de ser uma ótima casca, o que de mais bonito há nela é o que ela abriga. É o seu recheio. São os cantinhos da minha infância, meus esconderijos. Minhas alegrias, meus choros, minhas tristezas. Cada pedacinho de parede contém minha vida. E não só a minha. De minhas irmãs e também de meus pais. No meu caso é que contém minha vida toda. Porém do papai, contém sua alma. Me imagino em seu lugar. A maior alegria de um sujeito deve ser construir sua casa, levar sua mulher, seus filhos. Você mesmo construir. Deve ser a maior satisfação. Acho que por isso ele nunca terminou a casa. Sempre, todos os anos, ele faz uma reforma. Muda um quarto, pinta a sala, constrói um banheiro. É uma forma de prolongar aquela satisfação primeira. Assim é que fiz esse poema a seguir. Espero que gostem.

Sangue nas veias
(João Lucas)

O sangue que corre
nas veias da minha casa
é A positivo.
Eu sei, pois é o próprio
sangue do meu pai.
Papai é um passarinho
que encontrou sua árvore
para fazer morada.
E nós, pedimos a papai
para ser nossa árvore.
Sempre noto uma lágrima
em seu rosto vivido
quando noto esta casa
por lá detrás de suas pupilas.
Não há de haver prazer
maior que construir-se,
construindo-nos em
em solidíssima fundação.
Quando demolirem minha casa
só peço por favor para que
não a deixem sangrar muito. 




resposta da adivinhação: "Quando Berta bate à porta!"

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

política Maia


Não entendo como pode o Serra estar onde está e o Plínio estar onde está nas pesquisas. Me parece estar trocado. Quando olho para a cara do Serra, lembro-me da máxima dita pelo grande e genial Tim Maia quando pensou em sair candidato a vereador no Rio de Janeiro:


"O Brasil é o único país em que além de puta gozar, cafetão tem ciúme, traficante é viciado e pobre é de direita!".
(Tim Maia)



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Mussum, o original

Para tentar dar uma mãozinha em meus leitores "mudos" (parece que só a Caroline tem coragem de se arriscar em um Top5, que apesar de estar mais pra Top10, tá muito bem escolhido!) vou colocar aqui um vídeo que recebi de um camarada meu, camarada desses pra qualquer hora, pra qualquer parada, o Xico. Pode ser que colocando esse vídeo, ele próprio sugira seu Top5... Vamo lá galera, a gente pode inclusive combinar uma feijoada só pra inaugurar o cd, hein!? Que beleza!?
Falando um pouquinho do vídeo, é um desses programas Ensaio, da Tv Cultura. Só que esse é de 72. Antigão, preto e branco. Parece até que era um tempo bom. O Mussum fala nas travas da chuteira do Pelé, numa época que o Pelé ainda dava o ar de sua graça nos campos desse país. É um sambão sensacional, feito pelos originais do samba e que é a cara da feijoada. Podem provar! Bom apetite!


Ps.: quando eu cheguei lá pela Espanha e que não tinha onde ficar, não tinha onde morar, quem me salvou foi Jesus. Calma! Não é nada disso! O sujeito que topou alugar um apartamento pra mim - estudante, estrangeiro e só por 6 meses -, se chamava Jesus. O apartamento era ótimo, bem localizadíssimo, e o melhor: o Jesus também era dono de um bar! O bar se chamava Zócalo e de certa feita ele me convidou para montarmos uma festa brasileira. Ótimo, até que ele disse que eu ia fazer as caipirinhas. Cheguei lá, ele estava com uma garrafa de uma cachaça mineira estranhíssima, sabor rapadura e um litro de Ypióca empalhada. Já tinham meses que eu não colocava uma gota de cachaça na boca (quando eu entrei na faculdade de arquitetura me disseram que doença de arquiteto só são duas: lordose e cirrose...) e eu adorei ver aquela musa empalhada - quem lê isso pensa que eu sou um bebedor inveterado, a bem dizer, um alcólatra... mas já não mais! Foram arroubos da juventude! E mandou eu escolher qual cachaça usaríamos nas caipirinhas. Fiquei com a Ypióca e ainda ganhei um litro de presente. Enfim, tudo isso para dizer que corri pra tentar descobrir uma boa receita de caipirinha e consegui. Ficaram excelentes e agora repasso pra vocês (tudo por um bom Top5 de músicas pra se ouvir comendo uma feijoada!)

1 limão
1 colher (de sopa) de suco de limão
4 colheres de açúcar
1 pitada de sal
e 2 doses de cachaça

Olhem só como é legal. Cortem o limão em cubos pequenos, da espessura de um dedo. Daí, mistura com o suco de limão e machuca tudo, pode ser com um socador. Depois coloca o açúcar e a pitada de sal, mistura e deixa descansando por uns 10 minutos. Depois divide isso em dois copos, coloca a dose de cachaça, um gelinho, enfeita o copo com uma fatia de limão e é correr pro abraço! Bastante bom!
abraços!