domingo, 3 de outubro de 2010

os portões do mundo que os avós criaram

Achei interessante o comentário da Angélica sobre minha última postagem porque ela disse que já passou por tantas portas e paredes;  por isso lembrei-me da música que usei em minha apresentação de projeto de graduação. Se chama "Vale do Jucá", do Siba. Vou colocar a letra da música aqui depois. 
Ontem, andei pelo Centro de Fortaleza, ajudando ao Eugênio a garimpar casas que sejam de algum interesse histórico. Só reforçou minha postagem de ontem. A força da grana que ergue e destrói coisas belas é muito forte. Principalmente se os governantes não fazem nada para controlá-la. É lamentável como tantos prefeitos ao longo dos anos deixaram nosso Centro ficar como está. Essa sensação é consideravelmente ampliada quando fazemos pesquisas de como era nossa cidade há alguns anos atrás. E não precisa ir muito longe. Menos de 100 anos. Fortaleza era uma cidade com certeza charmosa. Havia um certo padrão nos gabaritos das casas, dois, no máximo três pavimentos. Haviam fachadas ecléticas, quase nunca luxuosas, mas sempre de bom gosto, delicadas e bem influenciadas pela Belle Epóque. As ruas de paralelepípedo. Um paralelepípedo grande, bom, bonito, que inclusive gerava orgulho nos habitantes, que o chamava de "cearalelepípedo". O mais triste é saber que ele está escondido, encantado por debaixo do asfalto, asfalto que ferve, abafa e que, como se já não bastasse o sol para torrar nossos miolos de cima para baixo, o asfalto faz o favor de uniformizar a queima e bota calor de baixo pra cima também.
O trabalho de garimpo ali é dificílimo. Muito mais que difícil, é triste. Uma fachada que ainda resiste com sua alma antiga, ao tentar exibir sua data de nascimento, mostrando sua idade avançada, como que um grito, um protesto, um pedido de um mínimo de respeito, é reprimida por placas enormes de latão, com uma propaganda, uma marca, um ferro em que o capitalismo desenfreado vai marcando à fogo nossa história.
É triste saber que o desrespeito e a indiferença não é só com as gerações futuras. O mundo em que viverão nossos filhos e netos será quente, feio, monótono e principalmente desprovido de referências e de identidade, porém o mundo em que viveram nossos avós está sumindo, encantando-se como um Dom Sebastião por detrás do asfalto, do concreto, das placas. Os portões do mundo que os avós criaram está cada vez mais difícil. Para encontrá-lo agora, só com um garimpo mágico, emocional, sobrenatural. 
E pensar que um dia seremos os avós que criaram os portões desse novo mundo...
Vou mostrar então um vídeo com os slides finais da minha apresentação. Quando passei de slide para vídeo os tempos de transição das imagens ficaram diferentes, assim, as imagens acabarão um pouco antes da música, mas vale ficar ouvindo até o fim. O tema é bem parecido, mas ao invés  de trabalhar no centro, fui procurar referências na Praia de Iracema. Um dia explico melhor o projeto. Aí está o vídeo, a música e a letra.



Vale do jucá
(Siba e Fuloresta)

Era um caminho
quase sem pegadas
onde tantas madrugadas
folhas serenaram
era uma estrada 
muitas curvas tortas
quantas passagens e portas
ali se ocultaram
era uma linha
sem começo e fim
e as flores desse jardim
meus avós plantaram

era uma voz
um vento, um sussurro
relâmpago, trovão e murro
luz que se lembraram
uma palavra quase sem sentido
um tapa no pé do ouvido
todos escutaram
um grito, um odo 
perguntando aonde
nossa lembrança se esconde
meus avós gritaram.

Era uma dança
quase uma miragem
cada gesto, uma imagem
dos que se encantaram
um movimento, um traquejo forte
 passado, risco e recorte
se descortinaram
uma semente no meio da poeira
chã da lavoura primeira
meus avós dançaram

uma pancada
um ronco, um estralo
e outros pés e um cavalo
guerreiros brincaram
quase uma queda
quase uma descida
uma seta remetida
as mãos se apertaram
era uma festa
chegada e partida
saudações e despedida
meus avós choraram.

Onde estará
aquele passo tonto
e as armas para o confronto
onde se ocultaram 
e o lampejo da luz estupenda
que atravessou a fenda
e tantos enxergaram
ah! se eu pudesse
só por um segundo
rever os portões do mundo
que os avós criaram.

2 comentários:

Angélica disse...

É, João, você não sofre sozinho desse lamento, compartilho com você a insatisfação e o desgosto desta arquitetura sem ternura, barata e sem artista desconhecido escondido nos contornos da mais simples morada. Essa poluição visual de placas e quadrados sem graça é a "des'graça" da cidade "moderna".

eugênio moreira disse...

É, o garimpo foi pra lá de sofrido. Ainda bem que tu me deve a alma, de modo que eu pude cobrá-la. Porque não sei que tamanho de amizade seria capaz de, sozinha, manter um ser humano andando no Centro, com aquele sol senegalês, das 10 as 17, unicamente pra ajudar um infeliz a terminar um trabalho que ele devia fazer só. Sou pra lá de agradecido!

E o termo técnico é realmente esse: garimpo. É preciso ficar atento, procurar com cuidado, forçar a vista e por vezes abstrair. Há trechos tão devastados, que a única coisa que resta é torcer pra que por trás de alguns daqueles mondrongos de metal e plástico, onde a vista não alcança, ainda haja qualquer breve suspiro, qualquer mísera lembrança desse passado que estivemos longe de conhecer, mas do qual sentimos imensa saudade.

Lá pelas 2 da tarde, quando a gente pôde finalmente almoçar, lá no Lescale, na saída a gente reparou em umas fotografias antigas na parede. É impressionante como aquela região do Centro não era só bonita, mas sobretudo humana. As calçadas eram enormes, árvores que não acabavam mais! Acho que naquela época o sol era pelo menos caribenho, sei lá... A antiga Sé tinha a cara da cidade. Era modesta, branquinha. Nem um pouco parecida com esse abrigo nuclear vestido pra uma competição de justa.




PS.: Essa última frase foi inspirada num sujeito que certa feita disse que o Dragão do Mar era como "punks espancando velhinhas" e que chamou a semana de arquitetura que nós organizamos de "colônia de férias para hippies da terceira idade".

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